O Fliperama
Ainda estamos falando de fichas?
Quando eu era criança, existia algo que os jovens de hoje talvez nunca cheguem a conhecer: o fliperama. Basicamente, era um lugar com várias máquinas de videogame onde se podia jogar através de um sistema de fichas. Em alguns, uma ficha era equivalente a uma vida; em outros, a uma tentativa.
A variedade de opções era enorme: Street Fighter, Cruis’n USA, Metal Slug… Talvez até houvesse alguns jogos mais obscuros que já não consigo lembrar. Afinal, gravamos na memória aquilo com que tínhamos mais afinidade.

Mas nem só de jogos eletrônicos vivia um fliperama. Havia também as clássicas máquinas de pegar ursinhos de pelúcia — conquistar um e dar para o crush era uma forma de flerte na época — e outras de onde se podia tirar cacarecos como relógios ou brinquedos aleatórios.
A existência do fliperama tinha algo de mágico. Ir a um deles era um evento da semana, às vezes até do mês. Quando alguém dizia: “Hoje vamos no fliperama”, era como passar de um dia chuvoso para um clima ensolarado. Os pássaros cantavam, o café parecia mais forte, as pessoas sorriam nas ruas. Tudo ficava melhor.
No “fliper”, para os íntimos, a magia acontecia — e as economias do mês davam adeus. Ali, sentíamo-nos verdadeiramente ricos ao pedir: “Quero cinco fichas!”. Cinco fichas eram cinco oportunidades. Cinco decisões que precisavam ser escolhidas a dedo: colocar todas no mesmo jogo ou dividir entre cinco diferentes? A escolha nunca era fácil.
E, para dificultar ainda mais, havia o vilão silencioso do fliperama: o tempo.
O tempo corria diferente lá dentro. Era possível chegar às três da tarde, jogar duas fichas e, quando menos se esperava, já eram oito da noite. Como isso acontecia? Ninguém sabia explicar. O fluxo do tempo parecia desafiar as leis da física. Se com duas fichas já havia distorção temporal, imagine com cinco! A maior riqueza também era o maior fardo: era impossível gastar todas de uma vez. Talvez os deuses do entretenimento tivessem um pacto: ninguém poderia alcançar o nirvana… mas o fliperama era o lugar mais próximo disso.
Quando o êxtase de gastar três fichas passava, vinha a tensão:
— Que horas são?
— Ainda dá tempo de usar as últimas?
— Tenho 30 minutos… se eu perder rápido, ainda consigo jogar as duas!
Ledo engano. Quando estávamos prontos para colocar a última ficha, o chamado vinha como um balde de água fria:
— Hora de ir embora, já está tarde. Deixa essa ficha para outro dia!

E assim saíamos, mais uma vez, com uma ficha no bolso. Sempre. Essa ficha, no entanto, nunca mais voltava para a máquina. Virava relíquia. Eu mesmo devo ter uma guardada em algum lugar, não apenas pela recordação, mas porque o tempo é implacável. E foi implacável também com o fliper: que até ontem era uma pizzaria no mesmo endereço, hoje está para alugar novamente.
Talvez o maior questionamento que fique seja: ainda temos tempo de usar essa última ficha? Ou já estamos velhos demais para tentar mais uma vez? Vale a pena guardá-la para, daqui a alguns anos, pensar que poderíamos ter procurado a oportunidade de gastá-la?

