Eu (ainda) estou aqui.
O relógio digital na base do monitor piscava, indiferente, os números mudando como folhas levadas pelo vento. Era terça-feira, mas podia ser qualquer dia. O ar condicionado zumbia baixo, uma constante que parecia embalar as teclas sendo pressionadas. Clack, clack, pausa, clack. Os sons se misturavam como uma música que ninguém queria ouvir, repetitiva e sem emoção.
Do outro lado da grande janela de vidro, a tarde acontecia devagar. O céu começava azul, mas logo se dissolvia em tons de cinza, como uma tela que o tempo decidira repintar com as cores do tédio. As árvores do outro lado da rua balançavam preguiçosas. Pessoas caminhavam, cada uma carregando sua história. Um entregador de mochila amarela atravessava o cruzamento, ignorando a luz vermelha, enquanto uma mulher com fones de ouvido gesticulava animada ao telefone. Lá fora, parecia haver vida. Aqui dentro, só relógios.
As horas no escritório passavam sem pressa, mas também sem pausa. Pilhas de papéis acumulavam-se sobre as mesas, enquanto os ponteiros do relógio de parede atravessavam os números como escaladores exaustos. 15h15. Apenas quinze minutos depois do último olhar furtivo.
O café parecia cada vez mais aguado, e o estômago roncava como quem reclamava da mesmice. Alguém tossia ao fundo, o som ecoando pelas divisórias. E então, o sol começou a se pôr, tingindo a sala com uma luz dourada que fazia tudo parecer menos opaco por um instante.
Às 17h55, algo muda. É sutil. Um movimento mais acelerado nas mãos que digitam, cadeiras girando em direção aos corredores, conversas baixas que começam a brotar, como se todos, coletivamente, prendessem a respiração antes do mergulho.
Às 18h00, um sopro de liberdade finalmente atravessa o ambiente. Um relógio apita em algum lugar, e todos se movem, quase sincronizados. Bolsas sendo pegas, computadores desligados, cadeiras empurradas para trás. Não é pressa, mas uma urgência silenciosa.
Lá fora, o céu está quase escuro, mas as luzes da rua acendem como promessas de que o dia não acabou. Na calçada, a vida espera. Aqui dentro, as cadeiras vazias e o ar condicionado ainda zumbindo lembram que amanhã tudo começa outra vez.

