Dia de chuva
O relógio piscava as horas em vermelho no criado-mudo, mas ninguém prestava atenção. O dia começava preguiçoso, com o céu cinza filtrando a luz em tons suaves que escorriam pela janela. A chuva batia levemente no vidro, ritmada, como se sussurrasse: "Não precisa sair daqui."
Os lençóis estavam quentes, o edredom pesado o suficiente para lembrar que o frio do lado de fora não tinha pressa. Não havia razão para abrir os olhos completamente. Os segundos se esticavam em minutos longos, e a urgência parecia ter tirado folga.
Lá fora, a cidade dormia. A única movimentação vinha das gotas que dançavam nos telhados e escorriam pelas calhas, formando pequenas poças na calçada. O cheiro de terra molhada subia com a brisa, misturando-se ao aroma do café que já começava a borbulhar na cozinha.
Era um dia sem hora, sem plano. O tipo de manhã em que o silêncio é quebrado apenas pelo ruído das páginas de um livro ou pelo clique de uma xícara de café sendo posta de volta à mesa. A mente vagueava, sem cobranças, sem relógios, sem metas.
O dia todo estava ali, à disposição, mas ninguém parecia querer usá-lo. Era como se o tempo tivesse sido feito para ser apreciado, e não preenchido.
E assim o sábado escorria, como a chuva lá fora: suave, tranquilo, sem pressa.

