Capítulo 8: O Sonho Compartilhado
O sono não veio de uma vez. Samuel rolou na cama por longos minutos, encarando o teto como se ele estivesse prestes a revelar algum tipo de mensagem escondida entre rachaduras e manchas de umidade. Cada vez que fechava os olhos, via o corredor torto, a sala do projetor, o corpo da criatura se desfazendo em ruído. Cada vez que abria, o quarto parecia… levemente fora de foco, como se o mundo estivesse carregando em baixa resolução.
Quando finalmente escorregou para o sono, não foi como cair num buraco.
Foi como ser arrastado para dentro de uma tela.
A sensação de peso desapareceu primeiro. Depois, o chão sob suas costas sumiu. Quando se deu conta, estava em pé — sem lembrar o momento em que ficara de pé —, envolto por uma neblina densa, pastosa, que parecia tentar entrar pelos poros. O chão sob seus pés oscilava entre sólido e algo mais… elástico. Como se estivesse andando em cima de um sistema ainda inicializando, com as texturas carregando em tempo real.
Ele olhou ao redor.
Sombras. Neblina. Um brilho suave e intermitente recortando contornos sem decidir se queria iluminar ou esconder. O espaço era amplo e, ao mesmo tempo, claustrofóbico — não havia paredes visíveis, mas a sensação de confinamento era clara, quase dolorosa.
E ele não estava sozinho.
Marcos, Vitor, Thaís, Isadora, Débora, Larissa, Henrique. Todos espalhados em torno dele, como se tivessem sido posicionados ali por algum programa que entendia de simetria, mas não de conforto. Estavam conscientes uns dos outros — Samuel sentia o peso dos olhares cruzando a névoa —, mas, quando tentou falar, a voz não saiu.
Não era que sua boca não funcionasse. As palavras simplesmente… não chegavam a existir. Morriam antes de virar som. Ele viu a mesma frustração nos outros: lábios se mexendo, garganta se contraindo, nada atravessando o ar espesso.
Canal de voz desabilitado, pensou, irritado. Instância compartilhada, chat travado.
Ainda assim, havia comunicação.
Nos olhos arregalados de Isadora, ele viu a mesma mistura de cálculo e pânico que costumava reconhecer quando ela encarava um problema sem bibliografia. Em Marcos, a culpa se somava ao medo, como se ele estivesse convencido de que qualquer coisa que tivesse acontecido era responsabilidade dele. Vitor parecia preso entre o impulso de fazer piada e a consciência de que, pela primeira vez em muito tempo, não havia graça nenhuma para puxar dali. Thaís segurava o próprio corpo como se estivesse tentando impedir que se desfizesse — braços cruzados, ombros encolhidos, olhar alerta. Débora, sem baseados, sem música, sem barulho de festa, encarava o nada com uma seriedade que parecia estrangeira no rosto dela. Larissa tinha a postura tensa de quem espera o golpe antes de qualquer explicação. Henrique trazia uma inquietação diferente: não só medo do que via, mas medo do que já tinha sentido, como se aquela fosse a segunda metade de um recado iniciado antes.
A neblina pulsou.
Um clarão suave percorreu o espaço, como se algum sistema, em algum lugar, tivesse clicado em “carregar entidade”.
A figura surgiu à frente.
Primeiro, o contorno: um corpo magro, envolto num traje negro ajustado, algo entre uniforme tático e fantasia de filme de ficção científica. O capacete cobria toda a cabeça, com duas grandes lentes vermelhas no lugar dos olhos — brilhando como LEDs irritados — e tubos que saíam da máscara e desapareciam nas costas, como se o próprio ar ao redor tivesse que passar por algum tipo de filtro.
Samuel sentiu o estômago se contrair.
De longe, era a silhueta perfeita de um agente da Tecnocracia numa versão estilizada — o tipo de figura que ele já tinha visto em sonhos piores, mas com menos fantasia e mais arma de verdade. O silêncio dos passos, o modo como o espaço parecia se ajustar à presença… tudo nele gritava controle.
Ótimo, pensou. Faltava homem de preto no pesadelo de hoje.
A figura se aproximou sem fazer som.
Com cada passo, o cenário parecia reorganizar-se, como se a própria névoa recalculasse sua posição em função dele. Samuel sentiu o ar ficar mais pesado, a gravidade puxando um pouco mais forte. O coração acelerou.
Ao lado, ele percebeu Larissa endurecer ainda mais a expressão, como se o ar estivesse sendo sugado diretamente dos pulmões dela. Débora fechou os punhos, os ombros tensos. Henrique deu um meio passo pra frente, meio reflexo, meio reconhecimento — algo nele parecia já saber quem está ali, mas travava na hora de nomear.
A figura parou.
As lentes vermelhas encararam o grupo por um instante que pareceu longo demais. O silêncio ganhou corpo.
Então, o capacete começou a se abrir.
Não houve efeito especial, nem barulho mecânico. Só o movimento lento, quase cerimonioso, de alguém que sabia exatamente o impacto do que estava prestes a revelar. O capacete se levantou, os tubos se soltaram, e o rosto apareceu.
Julio. Professor de literatura russa. O cara das piadas estranhas em sala, das citações de Dostoiévski e das metáforas sobre vodka e revolução. O mesmo sorriso de sempre, os mesmos olhos gentis.
Mas Samuel só conseguiu pensar: eu sabia.
Não “sabia” de verdade — não tinha certeza, nunca tinha testado, nunca tinha puxado linha demais. Mas havia, há meses, um cheiro estranho em volta de Julio. Um jeito diferente de falar sobre texto, sobre estrutura, sobre sistemas. Um modo de olhar o mundo que lembrava mago veterano tentando explicar metafísica usando romance do século XIX.
Agora, ali, o peso nos olhos dele confirmava tudo.
Um conhecimento antigo, fundo, que não combinava com a imagem de “professor legal” que todos viam nos corredores.
— Estou feliz que todos tenham conseguido chegar aqui — disse Julio.
A voz ecoou de modo esquisito, como se o espaço inteiro fosse uma caixa de som. As palavras deslizaram pela névoa, saltando direto para o entendimento de cada um, sem passar exatamente pelos ouvidos. Samuel sentiu a frase bater na mente com a nitidez de uma notificação de sistema.
Instância compartilhada, canal reativado, pensou.
Isadora foi a primeira a conseguir transformar o choque em pergunta.
— Professor… onde a gente tá? O que é isso?
Julio sorriu com calma.
— Este lugar é um reflexo das mentes de vocês — explicou, caminhando devagar, e a neblina se afastava como se abrisse caminho. — Uma interseção entre sonho e realidade. Alguns chamam de sonhar, outros chamam de Umbra, outros preferem “outro lado”. Eu não vou escolher um nome. O rótulo importa menos do que o que vocês sentem estando aqui.
Samuel sentiu o Avatar dar um leve toque no fundo da mente, uma espécie de “viu?” preguiçoso. Umbra, sonho compartilhado, nodo mental — era tudo variação da mesma coisa: um ponto fora da malha física, onde ideias e medos ganhavam forma.
Então você resolveu trazer a turma pra sala de reuniões astral, Julio, pensou. Nada discreto.
Julio continuou:
— Vocês enfrentaram hoje o começo de algo muito maior. Cada um despertou para uma realidade que vai além do que os olhos comuns conseguem ver. Isso torna vocês especiais…
Ele fez uma pausa curta.
— …e, ao mesmo tempo, coloca todos em perigo.
A palavra perigo reverberou com força diferente.
Samuel sentiu a reação do grupo como ondas na superfície daquele lugar: a ansiedade de Thaís, o impulso de fugir de Vitor, a mente de Isadora tentando transformar tudo em esquema, quadro, teoria; a culpa de Marcos subindo como febre; o medo instintivo de Débora, o cinismo ferido de Larissa, a devoção inquieta de Henrique.
Ele mesmo sentiu o estômago afundar. Não por surpresa — ele já sabia da guerra, das facções, dos agentes. O incômodo vinha de outro lugar: da confirmação de que, a partir daquele momento, eles eram alvo oficial.
— Que tipo de perigo? — ele ouviu Marcos perguntar antes que pudesse decidir se queria.
Julio respirou fundo.
— Despertar significa ver a realidade como ela é — disse o professor. — E isso atrai atenção de quem prefere que as coisas continuem como parecem ser.
Ele deu alguns passos, circundando-os como se desenhasse um círculo invisível em torno do grupo.
— Há organizações que atuam há muito tempo. Vocês talvez já tenham ouvido falar deles como “homens de preto”, “agências”, “protocolos”, “programas de pesquisa”. — O tom dele ficou levemente mais duro. — A maioria é reunida sob o que chamamos de Tecnocracia. Gente que acredita que o mundo só é seguro se for previsível, medido, tabelado. Tudo que não cabe na planilha, eles corrigem. À força.
Samuel sentiu a palavra travar na boca.
Tecnocracia.
Para os outros, aquilo era novidade. Um nome assustador, mas ainda abstrato. Para ele, não. Ele lembrava da luz fria de galpões abandonados, da perfeição limpa das armas, dos relatórios frios transformando pessoas em números.
O rosto de Henrique se contraiu um pouco. Tinha coisa ali que fazia sentido demais pra ele.
Julio continuou:
— E não são só eles. Existem entidades que nunca colocaram o pé no “mundo real” e preferem ficar em lugares como este. Alguns se alimentam de medo, outros de desejo, outros de ordem absoluta, outros de caos puro. Vocês já viram um pedaço disso tudo… na universidade distorcida. Aquela criatura, aquelas deformações… foram só o começo.
Samuel sentiu um arrepio subir pela nuca.
Só o começo, repetiu mentalmente. Ótimo.
Vitor franziu o cenho.
— Mas… aquilo que a gente enfrentou… o que era, exatamente?
Julio o encarou com certa ternura.
— Uma manifestação — respondeu. — Parte de vocês, parte do lugar, parte do que se esconde por trás do véu da realidade. Pensem como um erro de sistema… e, ao mesmo tempo, como sintoma. Não importa só o nome da doença, mas o que ela revela sobre o corpo.
Samuel quase sorriu.
“Erro de sistema” é apelido gentil, pensou. Era mais patch mal-escrito rodando em ambiente de produção.
Enquanto o professor falava, Samuel percebeu outra coisa: a estrutura daquele espaço respondia à fala de Julio. A cada conceito dito, a neblina mudava de textura, como se o sonho inteiro fosse uma interface didática. Quando ele falou em “organizações”, figuras vagas surgiram e sumiram nas bordas da visão, silhuetas de ternos, computadores, prédios de vidro. Quando falou em entidades, sombras maiores, mais antigas, parecendo vir de um fundo de mar, atravessaram lentamente o limite da percepção.
Ele não tá só explicando, Samuel constatou. Ele tá usando o sonho como quadro. Isso aqui é aula prática.
A certa altura, a imagem ao redor mudou de forma mais intensa.
Por um instante, eles não estavam mais na neblina vazia. Estavam em algo que lembrava a própria universidade… vista de longe, de cima. Blocos apareciam como estruturas meio translúcidas, cheias de fios de luz que os conectavam. No meio, pontos de sombra — nós de interferência.
Julio ergueu a mão.
— A Magia está viva. A Arte da Mudança nunca desapareceu. Embora a era dos feiticeiros tenha se tornado lenda, a magia tem um papel real e vibrante no mundo que conhecemos. Não acha? Olhe ao seu redor. — disse Julio.
Acima deles, as nuvens de névoa começaram a se condessar e a girar lentamente, como se o próprio céu do sonho tivesse se transformado numa tela curva. Samuel viu, projetadas naquele branco espesso, sombras de figuras encapuzadas em círculos antigos que se dissolviam, dando lugar a imagens de hospitais cheios de máquinas, satélites orbitando o planeta, crianças com celulares na mão. O passado de velhas magias se misturava com o presente tecnológico, tudo comprimido numa mesma camada.
— Voamos sobre oceanos e olhamos através do tempo. A distância entre Dallas e Tóquio cabe no seu bolso. Você pode criar mundos inteiros com números numa tela ou visitar a África sem sair da sua cadeira. Se isso não é mágico, o que é? — continuou.
Nas nuvens, um avião colossal atravessou um mar escuro, visto de cima, deixando um rastro de luz azul. Em seguida, relógios surgiram e se desfizeram como fumaça, ponteiros girando rápido demais. Dois pontos de luz, um com o nome “Dallas” e outro com “Tóquio”, apareceram distantes e, de repente, foram ligados por uma linha luminosa que se recolheu até caber na palma da mão de uma silhueta humana. Logo depois, Samuel viu uma torrente de números, códigos binários e blocos de texto formando cidades inteiras, que se desmontavam e remontavam em cenários de savanas africanas, desertos e florestas, como se o mundo fosse trocado de canal.
— Magia não é só bruxas voando em vassouras ou demônios invocados na calada da noite. Pode ser isso, mas não se limita a isso. Magia é a força da possibilidade… e agora, talvez mais do que nunca, parece que tudo é possível. — a voz de Julio ecoou.
O céu de névoa mostrou uma vassoura cortando a escuridão, seguida pela silhueta de um demônio com chifres estilizados e olhos brilhantes. Mas essas imagens “clássicas” foram logo engolidas por outras: mãos digitando freneticamente, uma cirurgia feita à distância, fibras ópticas entrelaçadas como serpentes de luz. Cada figura se abria em outras possibilidades, como se o próprio ar estivesse demonstrando o conceito de potencial infinito.
— E ainda assim nos dizem que a era dos milagres acabou. Estamos vivendo no Apocalipse, num ciclo cansativo onde a novidade é só mais um anúncio pop-up. Fomos colocados uns contra os outros num jogo de trivialidades. O máximo que podemos esperar, dizem, é uma casa grande, uma cama quentinha e uma grana no banco. Então, senta aí, cala a boca, assiste à sua TV, come seu Big Mac e acha que tá tudo bem. — continuou, o tom tingido de ironia.
As nuvens se tingiram com cores artificiais demais, quase fluorescentes. Samuel viu propagandas gigantescas surgirem e sumirem, como outdoors flutuantes: telas piscando “promoção”, rostos sorridentes demais vendendo felicidade instantânea, janelas de navegador abrindo em cascata, como chuva de pop-ups, cobrindo tudo. Uma mão anônima aceitava um combo de fast food enquanto, ao fundo, filas de pessoas andavam em círculos em esteiras invisíveis, sempre cansadas, sempre na mesma direção.
— Balela. Acorda. Seu futuro está na mesa. — disse Julio, e a palavra “acorda” reverberou.
À frente do grupo, as nuvens se recolheram para formar uma grande mesa suspensa no vazio. Em cima dela, Samuel enxergou baralhos sendo abertos — cartas de tarô, fichas de pôquer, contratos assinados em letras miúdas, dados rolando. Cada objeto brilhava por um segundo e depois se desfazia, como se o futuro fosse uma sequência infinita de jogadas possíveis, todas esperando ser escolhidas.
— Há uma guerra ao seu redor, com a própria Realidade em jogo. Nas sombras neon de um mundo embriagado pela tecnologia, há agentes da mudança lutando para forjar seu futuro. Alguns parecem refugiados de Hogwarts ou clones de O Exterminador do Futuro. Alguns lançam fogo ou invocam tempestades. A maioria parece gente como eu e você, mas as aparências enganam. — prosseguiu.
O céu onírico se rasgou em camadas: de um lado, uma cidade noturna vista de cima, recortada por letreiros de neon pulsantes, cabos elétricos e prédios envidraçados. Nas esquinas, silhuetas em capas longas trocavam olhares com figuras de armaduras mecânicas, olhos vermelhos como sensores. Em outro ponto das nuvens, Samuel viu magos erguendo chamas com as mãos, outros chamando relâmpagos de nuvens negras — tudo em recortes rápidos, como se fossem fragmentos de filmes diferentes sobrepostos. Quando Julio mencionou “gente como eu e você”, as imagens mudaram de novo: rostos comuns, estudantes, trabalhadores, pessoas em ônibus e bares, e, atrás delas, sombras discretas manipulando fios invisíveis.
— Chame-os de místicos. Chame-os de magos. Chame-os de Tecnocratas ou Loucos, mas não ache que eles não estão por aí. Porque tem uma guerra acontecendo. E agora você faz parte dela. — a voz desceu um tom.
As nuvens escreveram palavras imensas sobre o grupo: MÍSTICOS. MAGOS. TECNOCRATAS. LOUCOS. Cada termo surgia feito grafite luminoso e se desfazia logo em seguida, como se a própria névoa recusasse rótulos fixos. Embaixo dessas palavras, fios de luz partiram de um ponto central e conectaram-se a cada um que estava ali — Isadora, Marcos, Vitor, Thaís, Débora, Larissa, Henrique, e, por fim, Samuel. Ele sentiu, mais do que viu, aquele fio encostar nele: um lembrete incômodo de que não dava mais pra assistir de fora.
— Bem-vindo ao mundo real. Onde Passado e Futuro se tornam Agora. — concluiu Julio.
Então, o céu inteiro se dobrou sobre si mesmo.
Samuel viu relógios analógicos derretendo como na tela de um quadro surrealista, linhas do tempo retas se curvando até formarem círculos, fotografias antigas se sobrepondo a notificações de celular, cartas manuscritas se transformando em mensagens instantâneas. O passado escorria pelas bordas das nuvens para cair sobre o presente, enquanto o futuro, em forma de constelações de código, descia como chuva. Tudo se encontrava num único ponto de luz, bem acima da cabeça deles, que pulsou forte e, por um segundo, fez o coração de Samuel errar o compasso.
Cada frase parecia pesar no ar, como se o próprio sonho tivesse parado para ouvir.
No fundo da mente, o Avatar de Samuel só comentou, seco: como se você não soubesse.
Ele sabia. Sabia há anos.
Ainda assim, ouvir aquilo ali, dito de forma tão escancarada para o grupo inteiro, era como ver um segredo que ele vinha guardando com cuidado ser projetado num telão público.
Débora finalmente falou, a voz mais firme do que o que o olhar dela entregava:
— Tá. Lindo discurso de apocalipse… Mas o que a gente faz com isso agora?
Julio sorriu triste.
— Agora… vocês aprendem — respondeu. — Aprendem o que podem fazer, o que não podem, o que não devem. Aprendem que cada escolha tem preço, e que não existe poder sem responsabilidade. Em breve vocês vão precisar decidir de que lado dessa guerra pretendem agir. E também… quem pretendem proteger.
Henrique engoliu em seco antes de perguntar:
— Então… tudo isso… é tipo um teste?
Samuel já sabia a resposta antes de ouvir.
— Não é um teste — Julio disse, sem hesitar. — É a realidade se desdobrando diante de vocês. O que vem depois não está escrito num roteiro. Vai depender do que fizerem com o que receberam hoje.
Por alguns instantes, ninguém falou.
A névoa ao redor pareceu se acalmar. O chão parou de oscilar tanto. A sensação era de que o lugar inteiro aguardava, em suspenso, a próxima decisão.
Samuel sentia duas coisas ao mesmo tempo: um alívio estranho por finalmente ver um adulto desperto assumir parte da explicação… e um incômodo agudo por saber que aquilo mudava o tabuleiro. Com Julio no jogo, não dava mais pra fingir que ele, Samuel, era só o “cara que sabe umas coisas a mais de esoterismo e computador”.
O professor ergueu as mãos.
A neblina começou a se fechar, como se o sonho estivesse sendo minimizado.
— Agora, descansem — ele disse. — O caminho vai ser duro. Mas vocês não estão sozinhos. Nem aqui, nem acordados.
O rosto de Julio começou a desfocar, como janela que se fecha.
Samuel sentiu o puxão familiar do retorno: o corpo chamando de volta, o quarto, a cama, o peso dos lençóis, a promessa de acordar suado e com a mente rodando em excesso de processo.
Só que, no momento em que a “gravidade” do mundo desperto começou a puxá-lo, alguma coisa… falhou.
Em vez de ser arrancado de uma vez, ele “travou” no meio do caminho.
O cenário não voltou ao quarto. A neblina não sumiu totalmente. O grupo, sim — um a um, Marcos, Vitor, Thaís, Isadora, Débora, Larissa e Henrique se dissolveram, como avatares perdendo conexão. Restaram só ele… e Julio.
O espaço se reorganizou.
A neblina recuou um pouco, deixando o chão mais nítido — um vazio cinza, sem textura. Acima, o céu era uma massa escura, estática, sem estrelas. O silêncio voltou, mas não era opressor. Era… funcional. Como se alguém tivesse fechado todas as outras janelas para abrir só aquela conversa.
Julio o encarou com um cansaço que não mostrara para o grupo.
— Muito esperto da sua parte tentar sair junto com eles — comentou, como quem fala com alguém que já conhece. — Mas você sabe que não ia funcionar, né?
Samuel respirou fundo.
— Valia a tentativa — respondeu. — Não sou muito fã de conversa particular com gente que consegue controlar cenário de sonho.
Julio riu, baixo.
— Justo.
O riso sumiu rápido. Ele deu alguns passos, agora sem a teatralidade de antes. O uniforme negro parecia mais simples ali, como se fizesse menos esforço para manter a imagem. Havia rugas que não apareciam na sala de aula, um peso nos ombros que o quadro nunca revelava.
— Desde quando? — perguntou, direto. — Quanto tempo faz que você despertou?
Samuel teve vontade de responder com piada, mas o olhar do professor não era de alguém que aceitaria desvio.
— Alguns anos — disse, por fim. — Antes de vir pra cá. Antes da faculdade, antes da revista, antes deles.
— Tem um mentor? — Julio insistiu.
A lembrança de noites mal dormidas em frente à tela, vozes sem rosto em chats criptografados, instruções passadas por mensagens codificadas em arquivos aparentemente banais passou rápido pela cabeça dele.
— Tive — respondeu. — De um jeito… pouco ortodoxo. Sem bibliografia bonitinha, sem conclave, sem robe. Mais código, menos vela.
Julio inclinou levemente a cabeça.
— Adepto, então — constatou, sem surpresa. — Faz sentido.
Ele cruzou os braços.
— Você sabe o quanto isso é perigoso, Samuel. — O tom era mais professor que nunca. — Andar sozinho, sem cabala, sem apoio, só com um mestre à distância… já é complicado em tempos normais. Em lugar que está sob monitoramento direto da Tecnocracia, então…
Samuel deu de ombros.
— Se eu quisesse coisa fácil, tinha feito concurso e ficado quieto atrás de um balcão.
Julio não riu dessa vez.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Por que você está com eles? — perguntou. — Não vale “ah, porque gosto deles”. — O olhar perfurava. — Qual é, de verdade, o seu propósito aqui?
A pergunta ficou flutuando no ar.
Samuel sentiu um incômodo estranho: era o tipo de coisa que o Avatar tinha sussurrado muitas vezes, mas nunca em voz de outra pessoa.
Ele pensou em responder com cinismo. Em dizer que tudo não passava de coincidência, de acaso, de má sorte. Mas eles já tinham passado desse ponto. Ali, naquilo que ainda era sonho, mas cheirava à Umbra, a mentira soaria alta demais.
— Eu vim pra essa universidade porque ela já tava errada antes da gente chegar — começou, devagar. — Tinha ruído demais no sistema, nodo esquisito demais, sombra demais em lugar que devia ser só prédio público mal cuidado. Alguém precisava olhar isso de perto.
Julio ouviu em silêncio.
Samuel continuou:
— E aí… eu encontrei eles. — Um gesto vago, englobando os que já tinham sumido da cena. — Um hermético sem manual, um cultista que ainda acha que é só músico, uma verbena que pensa que só tá cansada demais da vida, um eutanatos que acha que tá só lutando contra burocracia e ex-namorada, um sonhador que fala com guia mas acha que é só fé, uma adepta isolada que nem sabe que é adepta, uma quase-vazia que se acha só caótica e chapada… — Ele soltou o ar. — Era um bug coletivo piscando na minha cara.
Julio arqueou levemente a sobrancelha, quase divertido com as categorias.
— E você decidiu… o quê? Puxar todo mundo pra dentro da guerra?
— Não — Samuel respondeu rápido. — Eu decidi que, já que eles iam cair na guerra de qualquer jeito, alguém precisava estar por perto quando o chão abrisse. Não pra salvar. — Ele engoliu o nó na garganta. — Pra segurar a estrutura. Pra evitar que quebrassem de vez logo no primeiro choque.
Ele baixou o olhar por um instante.
— “Suporte, não protagonista” — murmurou, mais para si do que para Julio. — Esse era o plano.
Julio o observou como se avaliasse não só o que ele dizia, mas o que segurava. O professor parecia enxergar as bordas da culpa, do medo, da arrogância escondida por trás da ideia de “suporte”.
— E você acha que tem dado certo? — perguntou, sem ironia.
Samuel pensou na escultura brilhando no centro acadêmico, na criatura da sala do projetor, nos corredores vivos, no quase colapso coletivo. Pensou nos sonhos de Henrique, nos tremores de Larissa, nas sombras agarradas em Thaís, no olhar assustado de Isadora, na inquietação de Marcos, na risada quebrada de Vitor, no cinismo vacilante de Débora.
— Eles estão vivos — respondeu, enfim. — E acordando. Contando só essa métrica… não é um desastre total.
Julio suspirou.
— Você prendeu um véu em volta deles na noite da escultura — disse, sem colocar ponto de interrogação. — Um arkanum de ruído. Não foi?
Samuel sentiu o peito apertar.
— Se eu não tivesse feito, alguém já teria catalogado eles como anomalia e mandado equipe bater na porta do bloco — retrucou. — Não dava pra deixar puro sinal no ar daquele jeito.
— Eu sei — Julio respondeu. E, pela primeira vez, havia algo parecido com aprovação clara no tom. — Mas cada vez que você se mete desse jeito, mexe num equilíbrio delicado. Você esconde, protege, distorce as leituras… e, ao mesmo tempo, aumenta o risco de chamarem atenção pra você.
Ele deu mais um passo, ficando quase à distância de conversa de corredor.
— Você não é só suporte, Samuel. Você é parte da equação. — O olhar endureceu um pouco. — E equações com muitas incógnitas tendem a explodir.
Samuel riu, sem humor.
— Sutil, professor.
— Não estou tentando ser sutil — Julio devolveu. — Tô tentando ser honesto. Esses jovens precisam de você. Mas você também precisa deles. E precisa… aprender a não carregar tudo sozinho.
Samuel ergueu o queixo, levemente defensivo.
— Eu não tô carregando tudo sozinho.
— Não ainda — Julio corrigiu. — Mas a tendência é essa. O jeito como você pensa, o modo como se vê… — Ele o imitara, numa espécie de eco: — “Suporte, não protagonista.” Cuidado pra não usar isso como desculpa pra se esconder enquanto o prédio desaba.
O Avatar, no fundo da mente, manteve-se numa estranha neutralidade, como se estivesse curioso para ver que lado Samuel escolheria.
Julio respirou fundo de novo.
— Eles vão olhar pra você, Samuel. — A voz amaciou. — Vão procurar respostas. Vão perceber, mais cedo ou mais tarde, que você sabe mais do que deixou transparecer. Quando isso acontecer… você vai precisar decidir que tipo de mentor quer ser. Mesmo que nunca se chame assim.
Samuel mordeu o lábio, pensativo.
— E você? — perguntou. — Onde você entra nisso? Só como o cara que aparece em sonho pra dar discurso?
O canto da boca de Julio se ergueu num quase sorriso.
— Eu entro onde der pra entrar sem colocar todo mundo no alvo de uma vez só — respondeu. — Alguns de vocês eu vou guiar mais de perto. Outros, vou cutucar à distância. Alguns, vou deixar tropeçarem sozinhos. — O olhar fixou Samuel de novo. — Você… eu vou vigiar com atenção especial.
— Porque eu sou risco?
— Porque você é recurso — corrigiu, com firmeza. — E recursos mal usados costumam virar bomba.
O silêncio entre os dois se alongou.
A neblina ao redor parecia ouvir.
Por fim, Julio completou:
— Só mais uma coisa. — Ele inclinou a cabeça, curioso. — Você sabe por que você foi puxado pra perto deles?
Samuel pensou em todas as respostas automáticas: destino, acaso, escolha dos mestres, capricho do Avatar, erro de rota no mapa da Umbra.
Nenhuma parecia satisfatória.
— Porque alguém precisava estar aqui — respondeu, por fim. — E eu fui burro o bastante pra dizer “sim”.
Julio riu, dessa vez com um pouco mais de honestidade.
— Burro não — disse. — Corajoso. Ou teimoso. Para um Mago, essas coisas confundem.
Ele deu um passo para trás. O cenário começou a desfocar de novo.
— De qualquer forma… — a voz dele parecia vir agora de todas as direções —… você não está sozinho, Samuel. Nem como suporte, nem como alvo. Quando ficar pesado demais… me procure. Acordado ou dormindo. Eu vou saber.
A neblina subiu outra vez como cortina.
O chão sumiu.
Dessa vez, Samuel não travou.
Caiu de volta no corpo com um solavanco, despertando na cama, o coração disparado, a camiseta grudada de suor, o quarto mergulhado na penumbra da madrugada. O som distante da chuva voltava a existir, batendo no telhado como se nada tivesse acontecido.
Ele encarou o teto, tentando reordenar os pensamentos.
Julio era desperto. Sabia dele. Sabia sobre ele.
O grupo todo tinha visto o professor naquele lugar impossível. Tinha ouvido sobre guerra, Tecnocracia, entidades, responsabilidade. O véu tinha rasgado um pouco mais — e não ia costurar de volta tão cedo.
Samuel levou a mão ao rosto, esfregando os olhos.
Suporte, não protagonista, repetiu mentalmente.
Mas, pela primeira vez, a frase soou menos como certeza… e mais como pergunta.






