Capítulo 5: Saindo das Sombras
Por alguns segundos, Samuel achou que tinha morrido. Não porque visse túnel de luz, parente chamando, nada disso. Mas porque o silêncio era antinatural demais. Depois do chiado agudo do projetor estourando, da criatura gritando como metal arranhando vidro por dentro da cabeça deles, o mundo simplesmente… desligou o som.
Nada de chuva. Nada de barulho do corredor. Nada de ventilação do prédio. Só as respirações irregulares deles cinco, descompassadas, preenchendo a sala como se fosse ar demais pra um espaço só.
Ele ainda sentia o eco da conexão rompida latejando nas têmporas. O projetor, agora morto, jazia no chão como carcaça de máquina sacrificada. No lugar onde a criatura tinha pairado, restava apenas um vazio estranho, quase palpável — como se o ar ali tivesse memória própria.
Samuel tentou engolir, mas a boca estava seca.
Acabou?
A pergunta veio, automática. E, na mesma hora, outra voz interna respondeu: Não. Só mudou de forma.
Thaís estava ajoelhada perto dos fios retorcidos, ofegante, os dedos ainda crispados como se continuassem segurando alguma coisa invisível. O cabelo grudado na testa, suor se misturando com o sangue seco. Vitor encostara numa carteira tombada, o peito subindo e descendo rápido demais, o olhar levemente perdido, como se ainda tentasse ouvir uma música que já tinha parado de tocar.
Isadora se apoiava na parede, os ombros tremendo, mas o olhar em alerta, como se tentasse catalogar cada detalhe do que tinha acontecido. Marcos permanecia em pé, um pouco afastado, as mãos trêmulas, os olhos fixos no espaço onde o monstro se desfez, como se esperasse que ele voltasse a qualquer momento.
O chão, pelo menos, tinha parado de pulsar.
Samuel sentiu as pernas cederem um pouco. Não se deixou cair. Se caísse, não sabia se levantava tão cedo.
— Acabou… — Vitor murmurou, num fio de voz. — Ou pelo menos parece que sim.
A frase era mais desejo do que constatação.
Samuel forçou o ar para dentro dos pulmões. O cheiro da sala havia mudado. Ainda havia mofo, tinta, suor e o resto indefinido de pesadelo queimado, mas faltava aquela pressão invisível que tentava enfiar medo garganta abaixo. Era como uma tempestade que tivesse passado, deixando o ar pesado, porém menos ameaçador.
Menos. Não sem ameaça.
Ele virou devagar a cabeça e encarou o projetor destruído. A carcaça rachada tinha marcas que não pertenciam a nenhum tombamento de patrimônio da universidade: sulcos estranhos, como se garras tivessem arranhado o plástico por dentro, tentando sair. As lâmpadas quebradas refletiam o pouco de luz que vinha das frestas da janela, devolvendo um brilho sujo, doente.
Terminal fechado, pensou. Mas o sistema continua rodando.
Não era a primeira vez que ele via um “sistema” tentando corrigir um erro à força — essa era, no fundo, a forma como o paradigma dele dava rosto ao Paradoxo: a realidade rodando patches brutais para estabilizar o que julgava desvio demais.
Lembrou de outra noite, anos antes, num galpão abandonado no fim de uma linha de trem. As luzes tinham apagado do nada, e, em vez de criaturas impossíveis, o que surgiu das sombras foram homens de preto, coletes pesados, visores opacos, fuzis que nunca apareceriam em licitação pública. Tecnocratas armados até os dentes, movendo-se em silêncio coordenado, varrendo o lugar como se estivessem limpando vírus de um servidor. Não havia grito, não havia aviso — só alvos eliminados, realidade “corrigida” a tiros. Ele lembrava do estalo seco dos supressores, do brilho frio nos óculos táticos, da forma como os corpos eram tratados como lixo de sistema: arrastados, apagados, reescritos no relatório.
Naquela época, Samuel tinha achado que aquilo era o pior que dava pra existir: a máquina fria, burocrática, disciplinada, tratando pessoas como bugs. Fuga, contra-medidas, correr pela margem da teia, puxar protocolos pra esconder rastro: era um jogo de gato e rato com regras claras demais.
Mas ali, naquela sala da universidade, era diferente.
Aquilo não era a Tecnocracia limpando o que não entende. Não era o brilho asséptico de agentes que se acham donos da verdade. Era algo orgânico, doente, brotando do próprio tecido do lugar. Um tumor de sonho e medo grudado na carne da universidade.
As memórias de outras viagens à Umbra voltaram em blocos rápidos.
A primeira vez que atravessou direito, guiado pelo mestre, a teia tinha semblante quase… elegante. Linhas de força claras, nós bem definidos, caminhos lógicos na insânia geral. A Digital Web, os corredores de dados, a sensação de surfar por cima dos fluxos — mesmo quando tudo ameaçava engolir, ainda havia uma espécie de estrutura, um “menu” invisível. Era hostil, sim, mas compreensível. Se você sabia ler os códigos, dava pra negociar passagem, burlar uma porta, reescrever um campo ou outro.
Aqui, não. O que eles tinham acabado de enfrentar não lembrava rede, lembrava carne infeccionada. Nada de caminhos organizados, nada de ícones limpinhos, nada de hierarquias visíveis. Era a Umbra se infiltrando por rachaduras do mundo desperto, um vazamento bruto, sem filtro. Em vez de nós lógicos, havia emoções destiladas até virarem monstros. Em vez de firewall, trauma acumulado. Em vez de roteamento claro, labirinto.
Pelo menos com a teia eu sabia em que nível do inferno tava logado, pensou, com amargura. Aqui, nem isso.
Isadora finalmente conseguiu falar. A voz dela saiu rouca, arranhada.
— Vocês… viram aquilo, né? — perguntou, sem tirar os olhos do espaço vazio. — A forma como ela… desapareceu.
Ninguém se deu ao trabalho de fingir que não.
— Não era só uma coisa — ela continuou, mais para ela mesma do que para o grupo. — Era… parte daqui. Parte da universidade. Como… como se fosse um tumor da própria estrutura.
Samuel sentiu um arrepio súbito na nuca. Ela tinha razão demais.
— A gente… sentiu aquilo aqui dentro — Thaís disse, ainda de joelhos, levando a mão ao peito. — Não era só olhar pra ela. Era como se tivesse entrando… — ela fechou os olhos por um segundo, procurando as palavras —… tentando usar a gente como combustível.
Usou, pensou Samuel, com um incômodo de culpa. Usou sim. E a gente deu, sem saber.
O ar aos poucos parecia retomar um fluxo mais normal. De algum lugar distante, o som da chuva voltou, tímido, como se não tivesse certeza se podia reaparecer. Era quase ridículo pensar que, do lado de fora, devia haver gente estudando, rindo, beijando na sombra de algum bloco. A vida seguindo, enquanto eles tinham acabado de derrubar uma coisa que nem conseguiriam explicar.
O peso da capa que ele tinha erguido — o “arkanum” improvisado, aquela camada de ruído mágico pra esconder a assinatura deles — ainda estava ali, firme, rodando em background. Não sabia dizer quanto tempo aquilo seguraria, mas pelo menos dava uma sensação breve de… anonimato. Quem quer que estivesse monitorando, do outro lado da rede da realidade, ia ter mais trabalho pra localizar o “bug”.
Só que não dá pra ficar plantado em cima do erro, ele pensou. Quanto mais tempo a gente ficar aqui, mais chance de alguém olhar duas vezes.
Samuel respirou fundo, sentindo a garganta arranhar.
— A gente não pode ficar aqui — disse, mais pragmático do que dramático. — Se essa sala virou ponto de interesse… é melhor não dar segunda temporada pro que quer que fosse aquilo.
Marcos concordou com um leve aceno. O olhar dele vagou pelas paredes, pelos restos das pinturas grotescas, agora desbotadas, como se alguém tivesse passado um pano úmido por cima. Ainda dava pra ver contornos de rostos retorcidos, símbolos queimados, mas tudo tinha perdido o brilho ativo. Era mais… cicatriz do que ferida aberta.
— Ele tem razão — Marcos murmurou. — Se alguém voltar pra terminar o serviço… eu prefiro que a gente não esteja aqui dentro.
Isadora afastou as costas da parede, as pernas ainda um pouco instáveis.
— E pra onde a gente vai? — perguntou. — Pros corredores? Porque… sinceramente, não sei o que é pior.
Samuel não pôde discordar. Os corredores antes da sala já eram um pesadelo em modo beta. Com a entidade destruída, o prédio não iria simplesmente dar reset e voltar à versão anterior da realidade.
Mesmo assim, ficar ali parecia… errado. Como se o espaço inteiro fosse uma língua preparada para pronunciar de novo o nome da coisa, se demorassem.
Ele se aproximou de Thaís e estendeu a mão.
— Vem — disse, sem rodeios.
O toque da mão dela na sua foi quente, pesada, humana. Um lembrete de que, apesar de criaturas impossíveis, conjunções de pesadelo e projeção, eles ainda tinham corpo. Corpo que sentia dor, que tremia, que cansava.
Thaís se pôs de pé com algum esforço. O rosto dela estava pálido, mas os olhos tinham um brilho estranho — algo entre choque e teimosia.
— Eu arranquei os fios, né? — ela perguntou, sem saber se queria ou não a confirmação.
Samuel assentiu.
— Arrancou — respondeu. — E puxou mais coisa junto.
Ela soltou um riso curto, sem humor.
— Ótimo. Adoro ser responsável por apagão metafísico — murmurou.
Ele gostaria de dizer algo reconfortante. Que “não foi culpa sua”, que “não tinha outro jeito”. Mas uma parte dele sabia que, justamente por ser culpa de todos ali, aquilo ganhava o peso certo. Tirar tudo das costas de alguém, às vezes, era só trocar aprendizado por anestesia.
Suporte, não anestesia, a voz do mestre lembrou.
Samuel se voltou para a porta. A maçaneta, vista de novo depois de tudo aquilo, parecia besta: metal barato, gasto, o tipo de coisa que emperra nos dias de calor. E, ainda assim, era uma fronteira. Lá dentro, os restos do pesadelo. Lá fora, o resto do labirinto.
Ele girou a maçaneta e sentiu um arrepio subir pelo braço, lembrança física da primeira vez que a tocara naquela noite.
A porta se abriu com um rangido longo. Os corredores da universidade esperavam do outro lado. Mas não os corredores de antes.
Dessa vez, a distorção parecia menos… intensa. As paredes ainda eram altas demais, o ar ainda cheirava a mofo antigo e algo queimado, mas a sensação de “presença esmagadora” tinha diminuído um pouco. Sob a iluminação vacilante das lâmpadas, os cartazes deformados, as pinturas de horror e os símbolos gravados ainda estavam lá, só que mais apagados, como se o pesadelo estivesse voltando lentamente para debaixo da pele do prédio.
Mesmo assim, Samuel sentiu o corpo inteiro ficar em alerta ao ultrapassar o limiar.
Saindo de uma sombra pra entrar em outra, pensou.
Os cinco se agruparam instintivamente, sem ninguém precisar dizer “não se afastem”. A proximidade física era a única coisa que ainda parecia contra intuitivamente segura.
O corredor se estendia à frente em duas direções. À esquerda, uma escuridão mais compacta, pesada. À direita, uma luz fraca, distante, oscilando como vela em fim de pavio.
— Eu odeio isso — Vitor declarou, quebrando o silêncio, a voz rouca. — Eu odeio essas escolhas de filme de terror. Sempre que tem luz fraca de um lado e breu absoluto do outro, você sabe que a luz é isca.
— E o breu é o quê? — Isadora rebateu. — Jogo rápido da morte? Não sei você, mas eu prefiro, no mínimo, ver o que vai me matar.
O humor dela era seco, ácido, mas o tremor na voz não enganava ninguém.
Samuel observou os dois lados.
À direita, a luz vinha de uma porta entreaberta mais à frente. A iluminação vazava pela fresta, desenhando um retângulo irregular no chão manchado. O ar naquela direção vibrava com um zumbido baixo, diferente do ruído estático de antes — algo mais… organizado. Ritmado.
À esquerda, o corredor parecia se alongar para sempre, engolindo qualquer tentativa de foco. As sombras ali não se moviam, e isso, de algum jeito, era pior.
“Quando você não souber pra onde ir…” A lembrança veio, espontânea. O mestre tragando cigarro, rindo da cara dele, muitos anos antes. “…não pergunta ‘qual caminho é mais seguro’. Pergunta ‘qual caminho me dá mais informação antes de me matar’.”
Ele soltou o ar devagar.
— Luz — disse, apontando para a direita. — Se tiver alguma coisa aqui ainda acordada, é lá que ela vai estar. E, sinceramente, eu prefiro saber onde pisa do que morrer tropeçando no escuro.
— Esse é o seu jeito de dizer que vai dar merda, mas pelo menos com explicação — Marcos retrucou, cansado.
Eles começaram a caminhar.
O chão sob os pés parecia mais firme, mas ainda havia uma sensação incômoda de que cada passo era observado. Como se o próprio corredor estivesse registrando a passagem deles, arquivando em alguma pasta invisível: “grupo de elementos potencialmente problemáticos; favor monitorar.”
À medida que se aproximavam da porta da luz fraca, Samuel notou que as paredes voltavam a mudar. As pinturas de sofrimento humano davam lugar a algo pior: símbolos.
Não eram rabiscos aleatórios. Linhas curvas, círculos imperfeitos, espirais, traços que se cruzavam em ângulos incômodos. Alguns desses sinais pareciam ter sido gravados a unha, arrancando pedaços de reboco; outros, queimados, deixando bordas escuras, chamuscadas. Em certos pontos, um brilho quase imperceptível escorria das linhas, como se a tinta tivesse vontade própria.
Ele sentiu os olhos arderem.
Protocolos, pensou, automático. Isso aqui é ritual congelado em parede.
A sensação de que o prédio inteiro era um diagrama começou a crescer na mente. Corredores como linhas, salas como nós, aquela sala em especial como… foco. O lugar onde alguém — ou algo — tinha escrito instruções no osso da universidade.
— Vocês sentem? — Thaís murmurou, quase colada às costas dele. — Parece que… esses desenhos estão… olhando de volta.
Samuel não precisava que ela dissesse. Também sentia. Ver aquilo com tanta nitidez não era só instinto — vinha do pouco que já dominava de Primórdio e, principalmente, do Avatar, que havia aprendido a sussurrar por debaixo dos pensamentos desde a noite do “upgrade”, apontando efeitos, fluxos e pontos de tensão como quem marca linhas de código problemáticas. Cada símbolo parecia medir algo neles, pesar, comparar com alguma referência invisível. Aproveitou para reforçar, por reflexo, o véu de ruído que ainda mantinha em volta do grupo, tentando fazer com que qualquer leitura mágica desse resultados… borrados.
Por fim, chegaram à porta.
Ela estava entreaberta, exatamente como ele tinha visto de longe. A luz que escapava ali de dentro era amarelada, vacilante, mais próxima da chama de vela do que de lâmpada fluorescente. O ar que vinha por baixo da fresta tinha cheiro de papel velho e incenso queimado demais.
Samuel pousou a mão na madeira. A superfície estava fria, mas não da mesma frieza metálica da maçaneta anterior. Era um frio de coisa que não via gente há muito tempo.
— Se tiver algo atrás dessa porta… — Marcos começou.
— …a gente já chamou a atenção dele faz tempo — completou Samuel. — Pelo menos aqui dentro dá pra olhar de frente.
Ele sentiu, mais uma vez, a responsabilidade apertar o peito. Não era só medo do que encontrariam. Era o peso de saber que, gostasse ou não, era ele quem os empurrava pra essas encruzilhadas. Que era ele quem sabia um pouco mais — só o suficiente pra entender o tamanho do buraco, não pra tapá-lo.
Você não é protagonista. Você é suporte, a frase voltou, insistente, mas agora trazia um gosto amargo. Suporte não significava deixar de sentir medo. Só significava que ele ia ter que engolir o próprio medo primeiro.
Samuel respirou fundo.
— Prontos? — perguntou, sem acreditar muito que a resposta pudesse ser “sim”.
Ninguém disse “não”.
Isadora ajeitou os óculos, como se fosse entrar numa apresentação importante. Thaís fechou as mãos em punho, as unhas cravando na própria palma. Vitor apertou o ombro de Marcos num gesto rápido, quase imperceptível.
Eles se alinharam atrás dele.
Samuel empurrou a porta.
A luz os engoliu devagar, forte demais para os olhos cansados. Por um instante, parecia mesmo que estavam entrando em outra sala — o cérebro, acostumado à estrutura da universidade, correu para preencher o resto com quadro, carteiras, janelas.
Mas, quando a vista se ajustou, não havia nada disso.
Não era uma sala. Era outro corredor.
O choque veio em duas ondas: primeiro o susto, depois a estranha sensação de alívio incompleto. O chão sob os pés já não parecia respirar, nem ondular como coisa viva. As paredes continuavam altas demais, mas estavam menos feridas — o branco descascado dava lugar a um tom sujo, porém uniforme, sem as pinturas grotescas de horror espalhadas por toda parte.
Ainda havia cartazes colados aqui e ali, mas, diferente do trecho anterior, esses pareciam… mais normais. Semana acadêmica, eventos velhos, grupos de pesquisa. As imagens ainda tinham algo errado nas bordas, um leve desfoque, como se o mundo estivesse em baixa resolução, mas pelo menos não tentavam engoli-los vivos.
E, pela primeira vez desde que tinham saído do centro acadêmico, as portas tinham identificação legível.
Samuel piscou mais de uma vez, apenas para ter certeza de que não era truque da mente. As plaquinhas metálicas, presas ao lado das entradas, traziam números e nomes reconhecíveis: Sala 104 – Secretaria de Departamento. As letras ainda tremiam um pouco se ele encarava por tempo demais — o prédio parecia se irritar com qualquer tentativa de foco prolongado —, mas, no geral, aquilo mais parecia um corredor “normal” que tivesse passado por um pesadelo, não o próprio pesadelo virado corredor.
O ar continuava pesado. O cheiro de mofo, papel velho e algo levemente queimado ainda grudava nas narinas. Mas a sensação de pressão direta na mente tinha diminuído. Era opressivo, sim, mas como um sonho ruim depois de um pesadelo lúcido.
— Ok… isso é novo — Vitor murmurou, olhando de um lado a outro. — Parece um familiar depois de uma madrugada muito errada.
— Ainda é a mesma universidade depois de uma madrugada muito errada — Isadora corrigiu, ajeitando o óculos. — Mas… pelo menos aqui as paredes não estão tentando conversar com a gente.
Thaís respirou fundo, o peito ainda doendo.
— Dá quase pra fingir que isso é só corredor de bloco velho — disse, a voz baixa. — Quase.
Samuel sentiu os ombros aliviarem um centímetro, mas não muito mais do que isso.
Como se o sistema tivesse carregado outra camada do mapa, pensou. Menos bugada que a anterior, mas ainda dentro do mesmo jogo.
Ele percebeu também outra coisa: a vibração do “arkanum” que ainda envolvia o grupo se comportava diferente ali. Antes, na sala do projetor, aquele véu de ruído parecia lutar com uma tempestade constante. Agora, deslizava com mais facilidade pelas superfícies, como se houvesse menos interferência bruta e mais… eco.
— Tá… — Marcos começou, a voz mais firme do que se sentia. — Se isso aqui é um corredor minimamente funcional, talvez exista uma saída de verdade em algum lugar.
— Tipo… porta corta-fogo, escada, qualquer coisa que não envolva entrar em outra sala maldita — Vitor completou.
Samuel assentiu.
— A gente segue — disse. — Mas agora com outra prioridade: achar qualquer coisa que pareça saída, portão, lance de escada… ou gente viva. Se o prédio resolveu carregar um cenário menos distorcido, é a nossa chance de procurar a borda.
Eles se alinharam no corredor novo, instintivamente se aproximando um do outro. O som dos próprios passos ecoava de forma mais reconhecível agora — ainda com aquele atraso incômodo, como se o prédio demorasse alguns milissegundos para aceitar que eles haviam se movido, mas bem menos agressivo.
Enquanto começavam a andar, passando por portas numeradas, Samuel sentiu uma mudança sutil no próprio peito. Não dava pra chamar de esperança — seria exagero —, mas havia uma espécie de trégua tensa. Como se o labirinto tivesse permitido que respirassem um pouco antes da próxima curva errada.
Saindo das sombras, pensou, observando o brilho vacilante das lâmpadas acima. Não da escuridão toda — só de um nível dela.
E, com essa meia-consciência de que ainda estavam presos, mas em terreno um pouco mais “limpo”, eles seguiram pelo corredor identificado, começando, pela primeira vez naquela noite, a procurar não apenas por sobrevivência imediata… mas por uma saída de verdade.




