Capítulo 4: Sonhos e Pesadelos
A maçaneta estava fria demais.
Samuel sentiu o metal gelado atravessar a pele e subir direto pelo braço, como um fio desencapado. Por um segundo, pensou em soltar. Em dizer qualquer coisa racional — “vamos voltar”, “não faz sentido”, “isso é só uma alucinação coletiva” —, mas o olhar dos outros estava nas costas dele, pesando.
Suporte, não protagonista, a voz antiga do mestre murmurou em alguma dobra da memória. Você abre caminho. Eles escolhem se passam.
Ele empurrou a porta.
O mundo do outro lado parecia ter sido montado por alguém com nojo de lógica. Aquilo tinha sido uma sala de aula — dava pra sentir no cheiro de giz velho, suor de prova de recuperação, tinta barata. Mas a estrutura estava… errada.
As carteiras estavam presas no teto, como se a gravidade tivesse decidido fazer hora extra só ali em cima. Metal e plástico pendiam invertidos, como uma floresta de raízes rígidas apontando pro chão. No piso, estilhaços de lâmpadas se espalhavam como gelo quebrado, mas o brilho vinha de outro lugar, difuso, sem fonte clara. As sombras não obedeciam a nada: se alongavam em diagonais impossíveis, cruzavam umas às outras, se contorciam nos cantos como se tentassem escapar da própria superfície.
No meio de tudo, o projetor.
Um trambolho antigo, daqueles que a universidade devia ter aposentado há uns dez anos, estava no chão, torto, com a carcaça rachada. Sem cabo de força ligado. Sem nada conectado. E ainda assim… ligado. Um feixe de luz sujo saía dele e batia num quadro negro quebrado, pendurado pela metade na parede como um retrato torto de uma realidade que alguém tinha largado no meio do processo.
Samuel sentiu o estômago virar.
Isso é interface, pensou, automático. Um terminal no meio da carne.
As paredes — ou o que devia ser parede e chão, já que tudo parecia ter trocado de lugar — estavam cobertas por pinturas. Não eram grafites de aluno entediado. Eram manchas, traços, figuras distorcidas que pareciam ter sido cuspidas ali com pressa, raiva e desespero. Cores escuras, vermelho que lembrava ferrugem e sangue ao mesmo tempo, pretos tão densos que pareciam engolir a pouca luz.
— Que porra… — murmurou Vitor atrás dele, a voz engasgada num meio riso que não chegava a nascer.
Samuel deu um passo pra dentro. O ar era mais pesado, úmido, como se alguém tivesse jogado o resto de todos os pesadelos da semana ali e fechado a porta por tempo demais. O cheiro misturava mofo, tinta fresca e algo doce e podre, impossível de identificar.
Isadora entrou logo depois, quase esbarrando nas costas dele. O óculos dela escorregou um pouco no nariz quando ela levantou o rosto, tentando dar sentido ao que via. Tinha algo quase ofendido na expressão dela — como se a sala estivesse quebrando uma regra gramatical que ela nunca tinha visto ser quebrada.
Thaís veio logo em seguida. O corpo dela encolheu de leve, como se quisesse se proteger de um frio que não tinha nada a ver com temperatura. Os olhos caminharam rápido pelo teto invertido, pelas carteiras presas, pelas paredes pintadas. Samuel percebeu o momento exato em que ela deixou de olhar pro ambiente como “coisa estranha” e começou a olhar como “ameaça”.
Marcos entrou por último com Vitor, fechando o grupo. O cara que sempre tinha piada pronta, uma frase de efeito. Ali, ele só respirou fundo — uma, duas vezes —, como se precisasse travar o rosto pra não deixar o medo vazar.
— Não é… possível que isso esteja dentro da universidade — ele murmurou, mais pra si mesmo do que pros outros.
Está dentro de vocês, Samuel corrigiu mentalmente, sem coragem de dizer em voz alta. E alguém abriu o arquivo errado.
A luz do projetor tremeluzia. Ele se obrigou a olhar na direção do feixe, mesmo sabendo que não devia. O quadro negro rachado recebia a projeção como uma ferida aberta.
As imagens não faziam sentido num primeiro olhar. Manchas de cor, borrões em movimento, ruído visual. Mas, conforme os olhos acostumavam, as coisas começavam a se organizar em camadas.
Era como olhar pra um monitor com cinquenta janelas abertas ao mesmo tempo, todas em transparência máxima, uma em cima da outra.
Por trás de tudo, Samuel viu a universidade — ou o que restava dela — se dobrando como papel molhado. A fachada do bloco, corredores, escadas, tudo curvado por uma perspectiva impossível. Em outra camada, flashes de rostos: alunos que ele reconhecia vagamente, alguns professores, uma multidão desfocada que se dissolvia antes que ele pudesse fixar.
Mais fundos, vinham os pesadelos.
Ele viu uma menina que parecia com Isadora, mas mais jovem, sentada diante de uma pilha de cadernos que nunca diminuía, mesmo com as páginas virando sozinhas. Toda vez que uma tarefa terminava, duas novas brotavam, como cabeças de hidra acadêmica. O rosto dela era o mesmo — olheiras, perfeccionismo, medo de decepcionar alguém que nunca aparecia.
Em outro canto da projeção, um palco sem fim, cheio de cabos e amplificadores que se repetiam como reflexo em espelho. Vitor estava lá, sozinho, tentando afinar uma guitarra que nunca respondia. O som que saía era sempre dissonante, fora de tom, fazendo a plateia invisível rir — risadas que cresciam de volume até chegarem perto de se tornarem gritos.
Numa terceira camada, Samuel reconheceu um cenário que podia ser o quarto de Thaís, mas tudo ali era feito de areia. Cada objeto que ela tocava desmoronava, escorrendo pelos dedos, enquanto ela tentava, desesperada, manter uma casa de pé com as mãos nuas. Trabalho, faculdade, relacionamentos, família — blocos de areia empilhados que caíam antes de ela terminar.
Ele quase virou o rosto. Quase.
Mas sabia que, se desviasse o olhar, a coisa ia encontrá-lo do mesmo jeito. Melhor encarar a interface do que deixar o processo rodar em background.
— Vocês estão vendo isso? — Vitor perguntou, a voz cortada pela metade. Ele não tirava os olhos da projeção, como se estivesse preso.
— Tô vendo demais — murmurou Samuel, baixo, sem saber se queria que alguém tivesse ouvido ou não.
As projeções aprofundaram. As cores se distorciam de novo, agora em padrões mais definidos. As linhas giravam como mandalas quebradas. Por um instante, Samuel teve a impressão clara de que aquilo não era só exibição — era uma espécie de linguagem.
Protocolos visuais, pensou. Uma API do pesadelo.
Se ele fechasse os olhos, podia quase traduzir. Quase. Mas a mente recuava, instintiva. Tinha coisas que você não puxava pro consciente se quisesse continuar inteiro.
Os sons vieram depois.
Primeiro um zumbido, parecido com interferência eletromagnética. Depois, sussurros. Não vinham do teto nem do chão — vinham do projetor, do quadro, das paredes, dos próprios ossos. Samuel sentiu as vibrações nas raízes dos dentes, um chiado grave que parecia subir pela coluna.
Marcos levou as mãos às têmporas, cerrando os olhos com força.
— Isso não é possível… Isso não pode ser real — ele murmurava, como se quisesse se convencer da própria frase.
Os sussurros foram ficando mais nítidos. Palavras surgiam em línguas que Samuel não reconhecia, mas o tom era claro: havia súplica ali. E algo que lembrava fome. Não uma fome de comida. Uma fome de presença.
Vozes que pediam “fica”, “não vai”, “olha pra mim”, “ouve”. Mas tudo soava… errado. Como gravações rodando ao contrário, cheias de trechos perdidos e eco demais.
Cada murmúrio arranhava a sanidade, puxando os pensamentos como se fosse um anzol.
O ar vibrou.
Samuel sentiu, como havia sentido antes com a escultura, uma mudança de frequência na realidade. Era quase imperceptível, mas ele estava treinado, mesmo que nunca tivesse usado essa palavra com os outros. A sala inteira entrou num estado estranho, como se o mundo tivesse caído levemente de FPS.
O mestre teria chamado aquilo de convergência. Ele preferia imaginar como lag: o servidor atrasando pra tentar processar uma quantidade indecente de dados.
Marcos respirou fundo ao lado dele, o olhar perdido num ponto qualquer da sala.
— Isso está dentro de nós — disse, num tom lento, assustadoramente calmo. — Não estamos apenas vendo isso. A gente tá sentindo.
Samuel virou o rosto pra ele.
Marcos parecia menor, de repente. Como se a figura do líder tivesse desinflado, dando lugar ao garoto que carregava culpa demais, histórias demais, lutos demais. Ele tremia pouco, mas tremia.
Eutanatos, pensou Samuel, com uma pontada de dor no peito. Claro que você ia perceber que a linha vem por dentro.
A sala começou a escurecer.
Não foi o tipo de escuro normal — lâmpada queimando, tempestade lá fora. Era como se uma sombra líquida estivesse escorrendo pelas bordas da visão, cobrindo tudo, camada por camada. O que antes era só pintura nas paredes começou a ganhar volume. Rostos se formavam na tinta, deformados, contorcidos, abrindo bocas que não eram bocas.
Thaís foi a primeira a reagir.
Samuel viu o momento em que ela deu um passo pra trás, depois dois, instintivamente tentando se afastar da parede mais próxima. O peito dela subia e descia rápido demais, a respiração presa entre o choro e o grito.
— Tem alguma coisa aqui… — ela sussurrou, quase sem voz. — Não é só a sala. Tem… gente. Tem… coisa… olhando de dentro.
As sombras se mexiam como se tivessem ouvido.
Claro que ouviram, pensou Samuel. A sala inteira é um ouvido gigante.
O ar ficou mais denso. Cada respiração parecia puxar gelatina pro pulmão. O som da chuva lá fora agora batia como tambor de guerra distante, ressoando nas costelas.
Samuel sentiu algo tocar a superfície da sua mente.
Não era físico. Era um empurrão suave, insistente, como um software pedindo permissão pra acessar a câmera e o microfone. “Deseja conceder acesso?”
Ele fechou os olhos por um segundo, ergueu mentalmente a mesma barreira que já tinha usado quando a escultura brilhara — firewalls simbólicos, linhas de código ao redor do próprio pensamento, criptografia improvisada. Não entra. Não entra. Não entra.
A coisa recuou um pouco. Mas não foi embora. Só começou a procurar brechas em outros lugares.
— Precisamos sair daqui… agora! — Isadora gritou, a voz ecoando estranhamente na sala, como se fosse repetida por rádios diferentes em frequências levemente fora de sincronia.
Ninguém se mexeu.
Ao invés disso, o chão pulsou.
Samuel olhou pro piso — ou pelo menos pro que restava da ideia de piso. A superfície parecia respirar, inflando e murchando em ondas lentas. As linhas das rachaduras formavam padrões que ele quase reconhecia como circuitos. Quase.
Uma fissura se abriu no quadro negro, invisível e ainda assim presente.
Do centro da projeção, a coisa começou a nascer.
A figura abissal se materializou devagar, como um glitch que vai ganhando resolução. Primeiro veio a silhueta: um corpo humano abortado no meio do crescimento, magro demais, pequeno demais, erradamente proporcional. A pele era tão pálida que quase transparente, deixando ver ossos finos, pontiagudos, prontos pra rasgar a carne por dentro.
Os braços eram atrofiados, curtos, inúteis. As pernas, tortas. O tronco parecia de alguém que tinha engolido um tumor gigantesco e deixado aquilo crescer por décadas. Era um corpo feito pra não funcionar.
Mas as asas — as asas eram enormes.
Saíam das costas miúdas com violência, como se não coubessem ali. Pareciam asas de morcego, mas cobertas de pelos grossos, escuros, que lembravam ao mesmo tempo um casaco e um mofo vivo. As veias das membranas pulsavam como veias à flor da pele, carregando alguma substância viscosa e escura.
No lugar das mãos, nada. Um rabo fino, comprido como as pernas, se agitava de um lado pro outro, inquieto, substituindo membros que nunca aprenderam a tocar o mundo.
Samuel deu um passo pra trás, engolindo em seco.
— O que… é isso? — a pergunta saiu antes que ele pudesse segurar. A voz mal passou de um sussurro.
A criatura pairou no ar, desafiando qualquer noção de física, sustentada por asas que nem pareciam bater de verdade, só tremiam num ritmo quase imperceptível. Os olhos — se é que dava pra chamar aquilo de olhos — eram buracos escuros, fundos demais, sem brilho. Nada ali lembrava vida. Nada ali lembrava morte. Era outra coisa.
Manifestação, pensou. Um processo criado do emaranhado deles. E meu.
A pressão na sala aumentou. Tempo e espaço começaram a perder definição — Samuel teve a sensação de que os milésimos entre um piscar e outro estavam aumentando, se abrindo como rachaduras. O ar vibrava com uma gravidade estranha, puxando os pensamentos pra baixo.
Isadora deu um passo atrás dele, mas a voz não falhou:
— Se a gente ficar parado, isso vai destruir todo mundo.
Samuel sentiu orgulho e medo ao mesmo tempo.
Hermética, lógico, pensou. Catalogando o horror, brigando com ele por definição.
A criatura virou a cabeça num ângulo que o pescoço humano nunca permitiria. Parecia tentar escolher por onde começar.
Vitor tremia, os dedos pressionando as têmporas.
— Isso não é possível… — ele repetia, mais fraco. — Isso não é real…
— Realidade não tá nem aí pra tua opinião, Vitor — Marcos disse, mas a própria voz dele vacilou no meio da frase.
Samuel viu o momento em que Marcos sentiu a coisa por dentro. A expressão dele mudou: o pavor no rosto não era só do que via, mas do que lembrava. Histórias de morte, enterros mal resolvidos, despedidas adiadas. O cheiro de hospital que nunca saía do nariz.
— Isso tá dentro de nós — Marcos insistiu, agora mais firme. — A gente não tá só vendo. A gente tá alimentando essa merda.
Ele entendeu, pensou Samuel. Pelo menos uma parte.
Não deu tempo de processar mais. A entidade atacou.
Ela se lançou contra Thaís com uma velocidade impossível pro corpo atrofiado que tinha. As asas se abriram num estalo de vento sujo, derramando sombra sobre ela como uma lona preta.
Thaís mal teve tempo de erguer os braços antes das garras — ou o que fazia o papel de garras naquele amontoado de apêndices e rabo — acertarem em cheio. O impacto jogou o corpo dela pro lado, contra uma fileira de carteiras invertidas.
Samuel ouviu o barulho seco do corpo batendo em metal suspenso. Um som que o cérebro, por autopreservação, tentou disfarçar como qualquer outra coisa.
Ela caiu, mas não ficou no chão.
Os olhos de Thaís, arregalados, marejados de dor e medo, se fixaram na criatura por um segundo. Depois, em alguma coisa além dela. Ele seguiu o olhar.
O projetor.
Havia uma linha ali.
Não era visível pros outros, mas pra Samuel, naquele estado de “upgrade” estranho em que tinha sido jogado desde a escultura, era claro: um feixe de conexão ligava o projetor à criatura. Um cabo que não existia no mundo físico, mas corria firme entre as membranas das asas e o feixe de luz. Era dali que o pesadelo puxava energia. O projetor não só exibia — ele alimentava.
É um terminal de invocação, pensou. Uma interface aberta demais, sem firewall, sem nenhum tipo de limitação. E alguém aceitou todos os cookies.
O instinto foi de agir.
Ele podia, naquele momento, tentar puxar esse cabo, reescrever a rota, derrubar a conexão. Imaginou linhas de comando disparando, protocolos caindo, a criatura congelando sob um crash de sistema.
A mão chegou a tremer.
E a voz do mestre voltou, firme, cortando o impulso:
“Você não é o protagonista da sua história, garoto. Você é suporte.”
“Vai entrar em grupos que nem sabem que precisam de você. Vai orientar, puxar, às vezes empurrar. E, quando começarem a depender demais, você sai de cena.”
“Você não vai salvar ninguém. Vai garantir que aprendam a nadar antes de afundar de vez.”
Samuel fechou a mão em punho.
Se resolvesse tudo ali, sozinho, com um truque que eles nem tinham nome pra entender, o que estava sendo chamado naquela noite podia simplesmente quebrar em cima deles. Ou, pior, notar que havia alguém “acima do nível” no meio do grupo.
Ele respirou fundo, mesmo com o ar grudando na garganta.
Suporte, repetiu. Ajuda, não rouba a cena. Não rouba o Aprendizado.
A criatura avançou de novo. Isadora recuou até encostar na parede, mas o olhar dela continuava cortante, calculando distâncias, buscando padrões. Vitor, mesmo tremendo, começou a produzir um som estranho — um meio canto, meio grito, metade melodia, metade ruído. A mesma sensibilidade que o musica fazia brilhar nos palcos agora se manifestava como tentativa desesperada de reorganizar o caos.
O som dele ganhou força.
Samuel viu as ondas sonoras. Não como linhas bonitinhas de osciloscópio, mas como campos de distorção que mexiam com as sombras. Onde o canto de Vitor batia, o pesadelo parecia hesitar um milésimo, como se alguém estivesse tentando ajustar o foco.
Marcos começou a falar.
Palavras em cascata, frases quebradas, pedaços de histórias que ele deveria ter usado na sala de aula, em rodas de conversa, não ali, na frente de um monstro. Mas as narrativas saíam mesmo assim: lembranças de personagens que enfrentaram o absurdo, de heróis trágicos, de gente que encarou o fim do mundo com algum tipo de dignidade.
As palavras dele se misturavam ao canto de Vitor num tecido estranho.
Samuel não podia ficar de fora.
Não podia ser protagonista. Mas podia reforçar a estrutura.
Ele se concentrou num ponto entre projetor e criatura e imaginou um filtro. Algo que não cortasse a conexão — Thaís já tinha visto o caminho, ele confiava que ela faria o resto —, mas que criasse atraso, ruído, latência.
Visualizou pacotes de dados cheios de medo e desespero sendo enviados do quadro pro corpo da criatura — e, em seguida, começou a “bagunçar” esse fluxo mentalmente. Cada vez que a coisa puxava uma nova onda de energia da projeção, ele empurrava uma pequena interferência no meio: erros de checksum, fragmentos de lembranças desconexas, redundâncias.
Não sabia se estava funcionando. Mas sentiu, por alguns segundos, a criatura hesitar no ar, como se tivesse ficado mais pesada.
Thaís se levantou.
Cambaleando, respirando com dificuldade, ela enxugou o sangue que escorria da testa com as costas da mão. Os olhos dela passaram pela criatura, pelo quadro, pelo projetor. A linha invisível que Samuel via, ela talvez visse de outro jeito — como uma raiz, uma seiva, um fluxo de energia mais primária. Mas viu.
— Marcos… — a voz dela falhou. — Segura… essa coisa longe de mim.
Marcos nem parou pra discutir. Continuou falando, mais alto, mais rápido. As palavras grudavam na superfície do monstro como se fossem pequenas âncoras, retardando os movimentos.
Vitor aumentou o canto, transformando em algo que lembrava um mantra torto, um refrão repetido com desespero.
Isadora… Isadora simplesmente avançou um passo à frente, colocando o próprio corpo meio na frente de Thaís, não como escudo físico, mas como linha de comando: ninguém ia encostar nela sem passar por Isadora primeiro.
Samuel sentiu a cena inteira como um diagrama mental.
Eles estão nadando, pensou, com um aperto no peito que misturava pavor e orgulho. Não sabem o nome da água, mas estão nadando.
— Thaís, rápido! — Marcos gritou de repente, a voz ressoando na sala como se tivesse pego carona em todos os ecos possíveis.
Ela correu.
Cada passo parecia afundar num chão de borracha, puxando as pernas pra trás. A criatura se debateu, tentou avançar de novo, mas os gritos de Vitor e as palavras de Marcos, somados ao pequeno lag invisível que Samuel continuava a injetar, criaram uma janela minúscula.
Thaís mergulhou na direção do projetor.
Os fios que antes não existiam fisicamente agora estavam lá, retorcidos, grossos demais, como se tivessem brotado do chão. Ela agarrou um punhado deles com as duas mãos.
Samuel sentiu, na mesma hora, a conexão vibrar — não só no mundo visível, mas na camada que ele vinha tentando evitar desde o começo. Era como segurar veias vivas.
Os gritos da criatura aumentaram.
Não era som que dava pra descrever. Misturava bicho ferido, criança chorando, metal rangendo, sinal dial-up de internet velha. Batia diretamente na parte do cérebro responsável por querer sair correndo.
— Eu… não vou parar! — Thaís gritou, as palavras engasgadas em lágrimas.
Samuel viu as mãos dela escorregarem nos cabos, a pele começando a queimar em contato com aquilo. Não era fogo, mas a sensação era a mesma. Ele se perguntou quantas cicatrizes invisíveis aquilo ainda ia deixar.
Ele reforçou o lag.
Se aquilo tinha sido uma péssima ideia, não tinha mais como voltar atrás. Puxou mais interferência pro fluxo, imaginando uma avalanche de zeros e uns inúteis invadindo a conexão, dados sem sentido entupindo a “rede” entre projetor e criatura. Toda vez que o monstro tentava sugar mais energia, encontrava lixo, redundância, ruído.
Thaís puxou.
Os cabos se esticaram, resistindo, pulsando nas mãos dela como serpentes.
Puxou de novo.
O som do mundo subiu um tom. As sombras pareciam enlouquecer nas paredes, formando formas ainda mais grotescas. A impressão era de que a sala inteira gritava junto com a criatura.
E então, num estalo seco, alguma coisa se rompeu.
O projetor emitiu um chiado agudo, tão alto que Samuel instintivamente levou as mãos aos ouvidos. A luz explodiu numa última rajada intensa — e morreu.
Escuro.
Não o mesmo escuro vivo e pegajoso de antes. Outro tipo. Um apagão repentino, sem transição.
Por um segundo, não havia som, nem imagem, nem nada além do próprio coração martelando com força demais. Samuel sentiu o mundo inteiro suspenso, como se estivesse entre dois frames, sem saber qual seria o próximo.
A criatura hesitou no ar.
Ele não conseguia ver direito, mas sentia. A presença dela, que antes era um peso esmagador, começou a ficar… oca. Como uma bolha furada.
Quando os olhos voltaram a se acostumar com o mínimo de luz que vinha de algum lugar lá fora, Samuel conseguiu distinguir o contorno do monstro tremer. As asas murchavam, perdendo volume, como se todo o ar dentro delas estivesse sendo sugado. O corpo, antes deformado e sólido, começou a se dissolver em uma espécie de névoa escura.
Partículas luminescentes — pequenos pontos de luz suja — se desprendiam das asas e flutuavam pelo ar antes de desaparecer, engolidas pelo chão.
Era como assistir um arquivo sendo apagado em tempo real. Não só deletado: sobreescrito, fragmentado, reescrito com zeros.
Thaís caiu de joelhos.
Samuel sentiu o impacto dela no chão como se fosse no próprio peito. Quis correr até ela, mas as pernas ainda estavam pesadas demais. Só conseguiu dar dois passos trêmulos, o suficiente pra ver o rosto dela — pálido, molhado de suor e lágrimas, mas… vivo. Completamente vivo.
A sala respirou.
O ambiente, que até então parecia segurar o ar dentro das paredes, começou a exalar um último suspiro. As sombras foram perdendo definição, as pinturas grotescas desbotando como tinta molhada que alguém passava com um pano. O teto com carteiras presas ainda estava errado, o quadro ainda quebrado, o chão ainda rachado — mas havia menos maldade ali.
O ar continuava pesado, mas de outro jeito. Não era mais opressão. Era cansaço.
Samuel sentiu os próprios ombros relaxando alguns milímetros. Não dava pra chamar de alívio, exatamente. Era mais a percepção de que o nível de perigo tinha baixado de “imediato” pra “permanente”.
Ninguém falou por um tempo.
Só as respirações irregulares preenchiam o espaço. Vitor soltou um suspiro longo, meio riso, meio soluço, e só então Samuel percebeu que também estava prendendo o ar há tempo demais. Inspirou fundo, como alguém que sai de baixo d’água.
Marcos se aproximou de Thaís, estendendo a mão.
— Você… conseguiu — ele disse, numa voz rouca, sem o menor vestígio do líder inflamado. Só um amigo incrédulo.
Isadora se deixou escorregar até apoiar as costas numa parede menos destruída, as mãos tremendo visivelmente. Ela olhou pro projetor morto, pro quadro rachado, pro espaço onde a criatura tinha estado.
Samuel olhou junto.
Nada mais ali brilhava. E, ainda assim, ele sentia ressonâncias. Um eco no código do lugar. Uma marca que não ia sumir tão cedo.
Eles despertaram olhando pra isso, pensou, com um nó na garganta. É assim que o sistema escolheu dar as boas-vindas. Com um crash quase total.
No fundo da mente, um outro pensamento se formou, amargo:
Se eu não tivesse segurado nada… teria sido pior? Ou teria acabado mais rápido?
Culpa.
Ela veio inteira, grossa, se misturando à exaustão. Culpa por não ter avisado nada antes. Por saber mais e ainda assim ter deixado que chegassem até ali sem manual. Por ter mexido nas linhas invisíveis durante a batalha, interferindo sem que ninguém jamais soubesse como ou por quê.
Você é suporte, o mestre repetia, paciente. Suporte não é sinônimo de invisível. Suporte é saber quando agir e quando deixar que doam. Crescimento sem dor é mentira.
Samuel fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, o mundo ainda estava torto. As paredes ainda não tinham voltado ao normal. Mas, entre um tremor e outro, sentiu algo diferente — uma espécie de… alinhamento. Como se os cinco ali estivessem, de alguma forma, sincronizados por uma experiência que ninguém lá fora acreditaria se eles contassem.
Ele olhou pra cada um.
Vitor parecia velho demais pra idade, mas havia um brilho novo nos olhos, como se uma parte dele tivesse finalmente ouvido a tal “melodia cósmica” que sempre suspeitou existir.
Thaís tremia, mas o olhar dela tinha fogo. Ela sabia que tinha puxado mais do que cabos — tinha puxado responsabilidade. E sobrevivera.
Isadora estava quebrada e reorganizando a si mesma em tempo real, tentando encaixar aquele horror dentro de algum paradigma compreensível. Uma hermética diante de um texto que não encaixa em teoria nenhuma.
Marcos olhava pras mãos como se se perguntasse o que, exatamente, tinha feito ali. As histórias, as palavras, o jeito como a criatura hesitara quando ele falava… Nada daquilo combinava com o mundo que ele achava que habitava até duas horas atrás.
Ele, Samuel, sentia dentro do peito a mesma vibração estranha da noite da escultura — só que mais forte. Um upgrade, como se alguém tivesse liberado um novo pacote de recursos sem avisar. Linhas de percepção que antes só alcançavam uma camada agora iam mais fundo, agarrando estruturas mais antigas, mais perigosas.
E foi ali, naquele silêncio pesado, que uma certeza fria se instalou:
Eles não têm mais volta. Nem eu.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo, em algum lugar distante, separada deles por mais do que paredes e janelas. O tempo recomeçou devagar — um pingar imaginário, um ranger de estrutura, o eco remoto de algum alarme que provavelmente não tinha nada a ver com eles.
Samuel respirou fundo, a garganta arranhando.
— A gente não pode ficar aqui — disse, finalmente, a voz mais firme do que se sentia. — Não depois disso. Se… sei lá o quê ainda tá olhando pra essa sala, melhor não dar bis.
Ninguém discutiu.
Ele ajudou Thaís a se levantar, sentindo o peso real dela, quente, humana, cansada. O contato foi um pequeno lembrete de que, apesar de monstro, pesadelo e projeção, eles ainda tinham corpo, carne, limite.
Enquanto caminhavam em direção à porta, Samuel lançou um último olhar por cima do ombro.
O quadro partido. O projetor destruído. O espaço onde a criatura se desfez em névoa.
Tudo quieto.
Mas, lá no fundo, quase inaudível, ele ainda sentia qualquer coisa vibrar — como se a realidade tivesse gravado aquele momento e, de tempos em tempos, fosse repetir internamente, como um trecho de vídeo em loop.
O emaranhado continua, pensou. Só mudamos o nó de lugar.
E, com essa certeza desconfortável enfiada no peito, ele puxou o ar uma última vez e cruzou a porta atrás dos outros, pronto — ou não — para o próximo erro da realidade.





