Capítulo 3: Os Corredores
Por um segundo, Samuel teve certeza de que ainda estava na sala do centro acadêmico.
A mão continuava em volta da caneca, o plástico da cadeira rangia sob o seu peso, o coração batia forte demais no peito. O cérebro, preguiçoso, tentou completar o cenário com o resto: o quadro azul, o sofá rasgado, as pilhas de papel.
Mas o som não batia.
Não havia mais o zumbido familiar do ventilador velho nem o ranger metálico de sempre. A chuva continuava, mas distante, abafada, como se fosse outra chuva, em outro lugar. O ar tinha outro cheiro: menos café, mais desinfetante barato, poeira de corredor que quase nunca vê gente.
Ele ergueu os olhos.
Não havia sala.
O centro acadêmico tinha desaparecido como uma aba fechada à força no navegador. No lugar, estendia-se um corredor longo demais para o bloco em que estavam, iluminado por lâmpadas frias encaixadas num forro de gesso manchado. As paredes pareciam mais altas do que deveriam, alongadas, como se alguém tivesse esticado o prédio pela coluna. O ar estava pesado com um odor acre de mofo e decadência, um cheiro denso, quase pegajoso, que grudava no fundo da garganta e parecia puxar junto memórias que ninguém queria revisitar. O chão de cerâmica, que ele conhecia de tanto andar por ali, estava manchado por faixas e poças escuras que, de relance, lembravam tinta derramada; mas, quando o olho insistia um pouco mais, havia nuances estranhas demais naquele brilho opaco — como se algo misturado ali tivesse secado em camadas, lembrando sangue, fuligem e o rescaldo de um fogo que nunca deveria ter existido. As paredes, pintadas de um branco cansado, exibiam cartazes antigos de eventos que nunca aconteceram, ou que pareciam velhos demais até pra memória da universidade.
Por um instante, ninguém se mexeu.
Isadora estava à sua direita, ainda com os dedos apertando a barra da própria blusa, como se tentasse costurar a realidade de volta na costura da roupa. Thaís, à esquerda, abraçava o próprio corpo, o olhar girando devagar de um lado a outro. Marcos ainda tinha a mão no ar, como se estivesse no meio de um gesto interrompido. Vitor segurava a borda de uma carteira que já não existia, os dedos fechados no vazio.
Era como se tivessem sido recortados da sala e colados em outro cenário sem que ninguém avisasse.
Samuel foi o primeiro a respirar fundo. O som do próprio fôlego soou alto demais no corredor.
Okay.
Corredores. Luzes. Não tem mais sofá. Não tem mais quadro. Não tem mais porta de saída ali atrás…
Ele virou-se instintivamente.
Onde deveria estar a porta do centro acadêmico, havia apenas mais corredor. Linhas de porta iguais, em série, todas fechadas. As plaquinhas com numeração estavam borradas, como se alguém tivesse esquecido de renderizar os detalhes. Se ele forçava a vista, os números até apareciam por um segundo — 305, 307, 309 —, mas se desfaziam logo em seguida, voltando a manchas escuras.
— Não… — Vitor murmurou, por fim. A voz saiu arranhada. — Não, não, não. Isso não é engraçado.
Ele deu um passo à frente, depois outro, como se estivesse testando o chão. Bateu leve com o tênis no piso de cerâmica. O som era sólido, real. Nada de efeito de eco falso.
— A gente… não tava aqui — disse Thaís, tentando formular o óbvio. — A gente estava na sala. A gente não levantou. A gente… só piscou.
Isadora virou para Samuel, rápido demais. O movimento fez o rabo de cavalo bater no ombro.
— Diz que isso é alguma coisa da nossa cabeça — pediu, sem rodeios. — Que é crise coletiva, ataque de pânico compartilhado, qualquer coisa assim.
Ele sentiu o peso daquele olhar como um soco leve e contínuo.
Você não é o protagonista da sua história, garoto. Você é suporte.
As palavras do mestre vieram limpas, sem esforço. Como se tivessem ficado o tempo todo ali, na parte de trás da mente, esperando um gatilho.
Vai entrar em grupos que nem sabem que precisam de você. Vai orientar, puxar, às vezes empurrar. E, quando começarem a depender demais, você sai de cena.
Na época, ele tinha rido. Agora, não via graça nenhuma.
— Eu… — começou, e precisou parar pra engolir a secura na garganta. — Eu também não acordei aqui, Isa. Eu tava sentado do teu lado faz… sei lá quanto tempo.
Não era uma resposta. Mas, por enquanto, era tudo o que ele podia dizer sem abrir mais do que devia.
Ele se afastou um passo do grupo, só o suficiente para poder olhar o corredor de outro ângulo. As lâmpadas, alinhadas no teto, piscavam em um intervalo irregular: às vezes uma acendia um pouco mais forte, às vezes outra perdia intensidade, como se o reator estivesse com mau contato. Mas havia um padrão ali. Um quase-ritmo.
Ele deixou a visão desfocar um pouco.
As paredes começaram a ganhar outra textura.
Sob a camada de tinta branca, havia algo que lembrava veias escuras, linhas tênues correndo sob o reboco, conectando uma tomada à outra, uma porta à outra, como um sistema circulatório doente mantido à força sob a superfície. De vez em quando, uma dessas “veias” pulsava, um inchaço quase imperceptível que fazia pequenos estalos no gesso, como se o prédio estivesse mastigando devagar.
Os cartazes de congressos passados não estavam apenas velhos: o papel ondulava, inchado de umidade e de algo que não era bem água. As bordas se curvavam como bocas tentando se desprender da cola, e as fotos de palestrantes anônimos pareciam ter olhos um pouco mais fundos do que deveriam. As fontes se mexiam sutilmente — uma letra tremia, outra escorria um milímetro para baixo, como tinta fresca que nunca secava de verdade —, dando a impressão de que o texto queria abandonar a própria função e fugir do papel.
Em algumas portas, a maçaneta parecia ligeiramente deslocada, alguns centímetros pra cima ou pra baixo, num jeito que o olho normal aceitaria como falha de pedreiro, mas que o dele lia como erro de modelagem: como se alguém tivesse redesenhado aquele corredor às pressas, sem conhecer bem a proporção humana. As sombras, projetadas pelo piscar irregular das lâmpadas, alongavam esses erros — uma maçaneta torta virava um gancho, uma tomada mal colocada parecia um olho fechado encravado na parede. E, enquanto eles andavam, Samuel tinha a impressão incômoda de que o reboco acompanhava o movimento, se reajustando alguns milímetros atrás deles, como se o corredor estivesse respirando pelo nariz entupido.
Umbra rala, pensou, com um aperto no peito. Ou algo muito perto disso.
Não era a primeira vez que via o mundo por aquelas camadas. Mas era a primeira vez que via o mundo deles assim. A universidade, o corredor por onde passavam todo dia, agora esticado, desdobrado, exposto.
— A gente ainda tá na universidade? — Marcos perguntou, quebrando o silêncio. A voz saiu baixa, mas firme. — Tipo… fisicamente?
A pergunta seria engraçada em qualquer outro sábado.
— Cheiro é o mesmo — Vitor murmurou, fungando o ar. — Produto de limpeza duvidoso, mofo e burocracia.
Ninguém riu.
Samuel fechou os olhos por um momento. Não precisou de muito esforço pra sentir o peso invisível ao redor. Não era só medo dos quatro. Tinha outra coisa, maior, espessa, como se o próprio corredor estivesse saturado de atenção.
Você vai encontrar um grupo. Eles já estão sendo puxados para o abismo, mesmo sem saber. Você não vai salvá-los. Vai garantir que eles aprendam a nadar antes de afundar de vez.
Outra frase do mestre, encaixando como uma peça desagradável.
Ele respirou fundo, puxou o celular do bolso e acendeu a tela.
O sinal de wi-fi marcava cheio, mas o nome da rede não era nenhum dos que ele conhecia. Em vez de eduroam, havia apenas uma palavra: NODE. As barrinhas de sinal pareciam mais vivas do que deviam, pulsando num ritmo que não era humano.
Desligou o wi-fi na mesma hora.
Abriu a câmera. Não levantou o aparelho, só deixou o sensor apanhar o corredor pela borda, fingindo que mexia em qualquer coisa banal.
No visor, o mundo parecia o mesmo — portas, luzes, chão. Mas havia uma diferença sutil: os quatro, ali ao lado, brilhavam. Não como tocha, não como neon, mas com um contorno quase imperceptível de cor. Isadora tinha um halo fino, amarelado, cheio de linhas geométricas se formando e se desfazendo rápido demais pra acompanhar. Em volta de Thaís, manchas de verde escuro e vermelho profundo rodopiavam, como se folhas e sangue estivessem presos num loop. Marcos era uma sombra densa com pequenos pontos pálidos, como velas acesas em um quarto em luto. Vitor parecia ter um rastro de luz colorida, quase como aquelas fotos de longa exposição de faróis de carro.
Ele mesmo… não deixou a câmera tempo suficiente pra ver.
Apagou a tela e guardou o celular antes que alguém notasse.
— Alguma ideia, ancião? — Vitor perguntou, virando-se pra ele. A provocação era automática, mas o medo por trás não era.
Samuel sustentou o olhar e percebeu, com uma pontada no peito, o quanto aquele garoto confiava nele sem admitir. O quanto todos confiavam. Ele era o mais velho ali. Tinha mais cara de “adulto”. Conhecia professores, trâmites, atalhos. E, agora, sem saber, esperavam que ele tivesse a resposta pra algo que ninguém no mundo deveria ter resposta.
Suporte, a voz do mestre repetiu. Não protagonista. Mantém o jogo rodando.
— Primeira ideia — disse, tentando colocar a voz numa linha entre o calmo e o urgente. — A gente não se separa. Nem um metro.
— Concordo — Thaís respondeu na hora, apertando um pouco mais os braços em volta de si.
— Segunda — falou Marcos. — A gente anda. Parado não melhora nada. Se isso for um… sei lá… efeito de alguma coisa, a gente não vai descobrir parado aqui.
— E se for tipo labirinto de filme de terror? — Vitor relutou. — Que quanto mais anda, mais se fode?
— Aí a gente se fode com informação — disse Samuel. — Parado, é só fodeção gratuita.
O comentário quase arrancou um meio sorriso de Marcos.
Quase.
Eles começaram a andar.
Não havia janelas no trecho em que estavam. Só portas de salas alinhadas, algumas com vidro fosco, outras completamente fechadas. Em todas, a mesma impressão de que as placas de identificação estavam borradas, como texto pixelizado demais pra ser lido sem aumentar o zoom.
À medida que avançavam, Samuel percebeu que, entre um cartaz e outro, surgiam manchas maiores na parede, como se alguém tivesse começado a pintar por cima da tinta antiga. Não eram grafites de aluno entediado. De longe, pareciam só borrões; de perto, ganhavam forma. Traços largos, feitos às pressas, mas com uma precisão perturbadora nos detalhes: rostos humanos retorcidos em expressões de pânico, bocas abertas demais, olhos arregalados que eram apenas buracos escuros. Em alguns trechos, a tinta vermelha parecia ter sido esfregada com as mãos, deixando marca de dedos, como se alguém tivesse tentado apagar o próprio pesadelo e só tivesse conseguido espalhá-lo.
Outras figuras se enroscavam ao redor dessas pessoas: sombras sem contorno definido, membros a mais onde não deveriam existir, curvas que traíam qualquer anatomia possível. Havia algo nelas que lembrava o jeito como o corredor se torcia na visão periférica — como se as criaturas tivessem sido copiadas da própria arquitetura viva do lugar. Em certos pontos, as imagens não pareciam pintadas, mas queimadas no reboco, como se um fogo antinatural tivesse gravado símbolos e formas incompreensíveis diretamente na parede, deixando bordas escuras, chamuscadas.
Mais adiante, as pinturas começavam a dar lugar a sinais gravados, riscados com algo duro na superfície: círculos imperfeitos, linhas cruzadas, espirais que pareciam girar mesmo paradas. Alguns desses símbolos brilhavam fracamente, como se uma luz fantasmagórica escorresse de dentro do gesso. Quando os olhos de Samuel passavam por eles, ele tinha a sensação incômoda de estar sendo examinado, medido e catalogado por uma coisa que não tinha rosto.
O som dos passos deles ecoava num atraso estranho, como se o corredor demorasse meio segundo pra decidir se ia devolver o ruído ou engolir.
— Que horas são? — Thaís perguntou, de repente.
Samuel checou o celular.
23h17.
O horário não fazia sentido. Eles ainda estavam presos ao “antes das dez” na cabeça. O pulo de tempo dava a mesma vertigem do pulo de espaço.
— Meu relógio deve ter surtado — mentiu. — Depois a gente confere num relógio analógico, se achar um.
— Não tem ninguém — Isadora comentou, baixinho. — À noite, até aqui costuma ter barulho. Gente passando. Professor saindo da aula. Até os guardinhas, cara, tudo sumiu.
Ela estava certa.
O corredor parecia mais vazio do que qualquer universidade deveria ser, mesmo de madrugada. Não havia vozes, não havia portas batendo, não havia cadeira arrastando em sala ao longe. O silêncio era tão grande que dava vontade de pedir desculpa toda vez que pisavam mais forte.
Depois de alguns metros, chegaram a uma interseção. O corredor se abria em forma de T: um braço seguia à esquerda, outro à direita. As luzes do lado direito piscavam com mais frequência, gerando sombras quebradas nas paredes. À esquerda, a iluminação era mais estável, mas o ar parecia mais denso.
— Esquerda ou direita? — Marcos perguntou, tentando parecer casual. — Não vale jogar dados.
Samuel olhou pros dois lados. Deixou os olhos desfocarem de novo, buscando a segunda camada.
À direita, as linhas sob o reboco se enroscavam como cabos azuis e prateados, convergindo para um ponto distante, fora de vista. Havia um som quase inaudível naquela direção, algo entre estática e sussurro de rádio. À esquerda, as veias do prédio eram mais orgânicas, curvas suaves, um ritmo que lembrava batimentos lentos.
Nenhuma das opções parecia boa.
Ele pensou em simplesmente chutar. “Esquerda”, porque era tradição de RPG. “Direita”, porque alguém sempre dizia que era o lado do “caminho fácil”. Em vez disso, lembrou do mestre, mais uma vez. De uma noite em que tinham discutido escolhas e probabilidades até as três da manhã.
Quando você não souber pra onde ir, o homem dissera, tragando a fumaça devagar, não pergunta “qual caminho é mais seguro”. Pergunta “qual caminho me dá mais informação sem me matar tão rápido”.
— Direita — respondeu Samuel, enfim.
— Algum motivo místico ou só palpite? — Isadora perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Palpite informado — devolveu, sem entrar em detalhes.
Começaram a seguir pelo corredor da direita.
À medida que avançavam, o som de estática foi ficando um pouco mais nítido. Ainda não era alto, mas o suficiente para incomodar. Como um rádio mal sintonizado em volume baixo em outro cômodo.
As portas naquele trecho tinham janelas de vidro fosco no topo. Em uma delas, Samuel achou ver uma silhueta parada do outro lado — alta, magra, imóvel, como se estivesse de costas para a porta. O ar congelou no peito.
Ele parou.
Os outros quase trombaram nele.
— Que foi? — Thaís sussurrou.
Ele piscou. A silhueta tinha sumido. No lugar, só a mancha opaca do vidro, refletindo parte do corredor.
— Nada — respondeu, sabendo que não convenceria ninguém. — Acho que eu tô começando a enxergar coisa demais.
— Se fosse só você — Vitor resmungou.
Continuaram.
Um pouco mais à frente, encontraram uma máquina de bebidas encostada na parede. O aparelho parecia antigo demais para estar ali: daquelas cheias de botões quadrados, com adesivos desbotados indicando café, chá, chocolate, cappuccino. A tela digital piscava números em vermelho: 88:88.
— Isso definitivamente é um sinal do apocalipse — murmurou Vitor. — Se essa merda funcionar, eu juro que largo a banda e vi pastor.
— Nem encosta nisso — Isadora avisou. — Do jeito que a noite tá estranha, você aperta “café” e cai num portal.
— Seria uma morte digna — ele disse, mas manteve distância.
Samuel, por outro lado, não conseguiu evitar dar uma olhada rápida de perto. Na superfície metálica da máquina, o reflexo deles aparecia distorcido, esticado, como se alguém tivesse puxado a imagem pelos cantos. O dele próprio parecia… duplicado. Uma sombra levemente atrasada em relação ao movimento.
Upgrade, pensou, com um fragmento amargo de humor. Parabéns, Samuel. Agora você tem lag interno.
O som de estática aumentou um pouco mais.
Eles chegaram ao fim do corredor.
Uma porta dupla, de metal, fechada. Acima dela, um letreiro luminoso indicava “SAÍDA” em letras verdes. O ícone da portinha e do bonequinho correndo parecia riscado, como se alguém tivesse passado uma unha sobre o plástico.
— Aleluia — Vitor sussurrou. — Se isso der na rua, eu juro que nunca mais faço piada com professor de literatura.
— Você já faz piada com professor de literatura? — Marcos perguntou, ofendido de brincadeira.
— Com você não, chefe. Ainda quero nota.
A troca parecia normal, mas as vozes, mesmo tentando soar leves, soavam tensas, afinadas demais.
Samuel pousou a mão na barra metálica da porta.
Gelada.
Por um instante, ele teve uma sensação estranha. Como se a porta estivesse… esperando. Não era só um pedaço de metal. Era um limite. Um limiar. Ele sentiu, de novo, a mesma pressão que antecedera o despertar da pedra — menor, menos violenta, mas reconhecível.
Você não vai salvá-los. Vai garantir que eles aprendam a nadar antes de afundar de vez.
Ele poderia, ali, tentar usar o que sabia. Poderia sondar o outro lado com mais cuidado, algum efeito de correspondência talvez, testar se aquela saída era saída mesmo ou mais um redirecionamento cruel.
Mas havia um limite tênue entre proteger e controlar. Entre suporte e manipulação. E ele sabia que, se começasse a calibrar cada passo deles como se fossem peças num tabuleiro, acabaria repetindo o que mais odiava em quem mexia com a realidade como se fosse brinquedo.
Soltou a barra.
— Alguém quer a honra? — perguntou, virando-se para o grupo.
Vitor levantou as mãos, dando um passo atrás.
— Eu passo — disse. — Melhor deixar com o editor-chefe, ou quem quiser ser o primeiro a morrer.
Thaís olhou para a porta como se ela fosse morder.
Isadora, porém, deu um passo à frente. O rosto ainda estava pálido, mas havia uma linha de determinação no queixo.
— Eu abro — disse. — Se for merda, pelo menos eu tenho argumentos depois.
Ela colocou a mão na barra, respirou fundo, fez uma cara que parecia com a que fazia antes de apresentar seminário. Samuel observou, o coração batendo um pouco mais rápido, resistindo à vontade de puxar a porta por ela e tomar o impacto no lugar.
Suporte, não escudo.
Isadora empurrou.
A porta cedeu com um rangido longo, metálico, que reverberou pelo corredor como um gemido.
Do outro lado, havia… outro corredor.
Menos iluminado. Mais estreito. As paredes, lá, pareciam sujas de um jeito diferente, como se houvesse algo escorrendo lentamente por dentro delas. O chão tinha marcas escuras, como pegadas apagadas, indo e vindo indo e vindo, sobrepostas, até formar um borrão.
O ar que veio de lá era mais frio.
E vinha acompanhado de um som novo.
Passos.
Não os deles. Passos ritmados, firmes, metálicos, ecoando em algum ponto adiante, fora do campo de visão. Como se alguém — ou alguma coisa — estivesse patrulhando aquele trecho com uma disciplina que não combinava com aluno de humanas.
A estática, naquele corredor mais fundo, era mais forte.
Samuel sentiu o arrepio correr pela espinha. Não era medo só do que vinha. Era o reconhecimento cruel de um padrão. Aquela cadência de passos, aquele cheiro de metal, aquela sensação de presença monitorando tudo.
Tecnocracia, uma parte dele sussurrou, no fundo. Ou algo bem próximo.
Ele não podia ter certeza. Não ali. Não agora. Mas o instinto berrava.
Vitor levou a mão ao corrimão do lado da porta, os olhos arregalando um pouco.
— Vocês… estão ouvindo isso do mesmo jeito que eu? — murmurou.
Os passos continuavam aproximando-se devagar, como se não tivessem pressa nenhuma. Ritmados. Certos. Mas havia algo no intervalo entre um som e outro que soava… errado, fora de compasso, como música maldita tocando em metrônomo perfeito.
Thaís estremeceu, um arrepio subindo pela coluna como água fria derramada na nuca. Instintivamente, ela recuou meio passo, afastando o corpo da fresta aberta.
— Eu não quero descobrir quem anda assim num lugar vazio desses — Vitor completou, a voz mais fina do que gostaria. — Fecha isso, Isa.
Isadora ainda estava com a mão na barra. Por um segundo, Samuel viu o conflito no rosto dela: a parte que queria respostas e a parte que queria permanecer viva. A segunda venceu.
Ela puxou a porta de volta, e o som do rangido metálico abafou, por um segundo, o ruído dos passos. Quando o batente encontrou o marco, o clac do encaixe ecoou pelos ossos deles.
O corredor em que estavam voltou a ser o único.
A estática diminuiu um pouco.
O silêncio que se seguiu foi horrível. Não era um silêncio vazio; era o silêncio de quem sabe que há coisa demais acontecendo atrás de portas fechadas.
— O que tinha lá? — Thaís perguntou, num sussurro trêmulo.
Samuel passou a mão no rosto, sentindo a pele fria.
— Seja lá o que for, tava vindo na nossa direção — disse. — E eu prefiro procurar outra rota do que sair correndo pra cima disso.
Marcos o encarou por um tempo que pareceu longo demais.
— E se aquela era a saída mesmo? — perguntou.
— Essa universidade vive de rota de fuga — respondeu Samuel, dando de ombros. — Se tiver um jeito de sair, deve ter mais de um. A gente tenta achar o que não vem com trilha sonora de pesadelo.
Não era uma resposta que satisfizesse ninguém, mas, por agora, teve o efeito de manter todos longe daquela barra metálica.
Voltaram-se, então, para o outro lado. O corredor que ainda não tinham explorado. O que seguia pra esquerda, lá atrás, antes da escolha. Talvez encontrassem escada. Talvez encontrassem mais nada. Talvez o labirinto só quisesse cansá-los, desgastá-los, testar limites.
Samuel sentiu, mais uma vez, o peso da missão que nunca pediu. Olhou para os quatro, um por um. Cada um com seus medos, sua história, suas rachaduras. Cada um brilhando, de um jeito torto, num mundo que não tinha sido feito pra acolher esse tipo de luz.
Eles começaram a voltar, os passos ecoando de novo naquele ritmo atrasado, como se o prédio demorasse a aceitar cada movimento.
À medida que andavam, a sensação de estar sendo observado não diminuía. Ela mudava. O olhar que pesava sobre eles já não parecia só o de máquinas frias, câmeras invisíveis. Havia outra coisa, mais antiga, mais curiosa, acompanhando a caminhada com uma atenção quase… paciente.
O mundo, ali, parecia segurar a respiração, esperando pra ver o que fariam em seguida.
Samuel sabia que, seja qual fosse a próxima esquina, o próximo corredor, a próxima porta, nada daquele caminho era neutro. Cada escolha ali ia ensinar alguma coisa. Sobre eles. Sobre o nodo. Sobre quem, do outro lado, puxava os fios.
E, gostando ou não, ele ia estar no meio.
Suporte. Elo. Não protagonista.
Por enquanto.
Eles viraram as costas para a porta de saída que não saía, e seguiram adiante, na direção do desconhecido que cheirava a desinfetante velho, poeira e magia mal disfarçada.
Os corredores da universidade os esperavam. E, pela primeira vez naquela noite, Samuel teve a nítida impressão de que não era o grupo que estava perdido dentro do prédio.
Era o prédio que estava se reorganizando em torno deles.
Essa impressão só ficou mais forte quando eles começaram a seguir de volta, na direção do corredor à esquerda.
Quanto mais andavam, mais o caminho parecia… dobrar. Não de um jeito dramático, de desenho animado, mas nos pequenos detalhes: uma porta que tinha ficado para trás reaparecia alguns metros à frente, a distância entre duas colunas parecia mudar levemente quando eles olhavam de novo, o chão ganhava uma leve inclinação onde deveria ser plano. Se Samuel encarava o corredor por tempo demais, tinha a nítida sensação de que ele se esticava e encolhia, como um elástico cansado.
O ar ao redor vibrava com um zumbido baixo e insistente, que não vinha de lâmpada, nem de ventilador, nem de nada identificável. Era o tipo de ruído que ele imaginaria dentro de um servidor antigo prestes a fritar: um ronco contínuo, fundo, como se estivessem caminhando por dentro de uma máquina gigantesca cuja engrenagem era feita de concreto, cabos e medo.
Em determinado ponto, o chão sob os pés de Isadora tremeu, um estremecimento curto, quase como se alguém tivesse batido com o punho no andar de baixo. Ela parou, a respiração presa, e Samuel viu o momento exato em que o corredor, na visão dela, deve ter se contorcido: os olhos da amiga arregalaram por um segundo, seguindo uma curva que só ela parecia enxergar. A mão dela foi automaticamente à parede, buscando apoio.
— Você viu isso? — Thaís perguntou, a voz baixa.
— Eu… não sei — Isadora respondeu, entre dentes. — Por um instante, pareceu que tudo isso aqui… torceu.
Samuel não disse nada. Porque, pra ele, o corredor não tinha só parecido torcer. Ele o viu se esticar como uma serpente sonolenta, o chão ondulando um pouco antes de voltar ao lugar, como se o prédio estivesse se espreguiçando em volta deles.
Vitor apertava uma das revistas que ainda carregava, a capa já amassada pelo suor dos dedos. Era um gesto ridículo — como se papel e grampo pudessem servir de escudo —, mas compreensível. O corpo inteiro dele parecia em estado de alerta, ombros tensos, a mandíbula travada. Samuel sabia, sem precisar perguntar, que o amigo estava ouvindo coisa demais: padrões no zumbido, ritmo nos passos, alguma batida escondida na respiração coletiva que transformava tudo em uma trilha sonora ruim.
— A gente precisa sair daqui — Vitor murmurou, mais pra ele mesmo do que pros outros. Havia urgência na voz, uma urgência que não vinha só do medo, mas de alguém que percebe a música mudando de tom e sabe que, se ficar, o refrão vai arrebentar.
Quando tentaram voltar pelo caminho de onde tinham vindo, Samuel percebeu a crueldade do lugar.
As portas que antes estavam fechadas agora surgiam entreabertas, escancaradas em alguns casos. Mas, quando algum deles arriscava lançar um olhar rápido para dentro, não via sala, nem mesa, nem quadro: via apenas um vazio escuro, um breu compacto demais para ser só falta de luz. Era como se atrás de cada batente houvesse um poço sem fundo, um abismo que, se encarado por tempo suficiente, começaria a sussurrar promessas no ouvido.
Samuel sentiu o estômago revirar. Não precisava de muito esforço para imaginar alguém tropeçando, caindo ali dentro, sumindo sem um som. O prédio, paciente, apenas fecharia a porta de novo.
— Ok… — Thaís murmurou, recuando de uma dessas aberturas. — Definitivamente, voltar não é uma opção.
À medida que avançavam, a sensação de estarem sendo observados só aumentava. Não era o olhar reto de câmeras, nem a vigilância fria que Samuel associava à Tecnocracia. Era algo mais difuso, espalhado, como se as próprias paredes tivessem desenvolvido curiosidade.
Em um momento, já sem saber quantas curvas tinham feito, Samuel teve a impressão de ver movimento no fim do corredor — uma sombra mais escura que o restante da escuridão, parada a uma distância impossível de medir. Ele piscou, e a coisa já não estava mais lá.
— Vocês viram…? — começou, mas se interrompeu no meio. Não queria ser o primeiro a nomear aquilo.
— Eu sinto como se tivesse algo só esperando a gente virar as costas errado — Vitor disse, sem olhar para trás. — Tipo bicho de jogo de terror que só se mexe quando ninguém tá olhando.
Ninguém riu.
Continuaram andando até que o corredor, enfim, se dividiu.
À frente, havia uma bifurcação: à esquerda, uma porta entreaberta deixava escapar uma luz fraca, vacilante, que lembrava muito mais a oscilação de uma vela prestes a apagar do que qualquer lâmpada fluorescente. A fresta iluminava um pedaço mínimo do chão, suficiente para mostrar mais manchas e a borda de algo que podia ser uma mesa… ou um altar improvisado.
À direita, o corredor continuava mergulhando em uma escuridão que parecia mais espessa, pontuada por sombras que se moviam de um jeito sutil demais para ser fruto só da imaginação.
O ar ficou mais pesado. Samuel sentiu, quase fisicamente, o peso da escolha empurrando contra o peito, como se o próprio prédio estivesse aguardando, em silêncio, para decidir como se reorganizar a partir daquela decisão.
— Eu sinto que… — Marcos começou, a voz falhando um pouco. Ele limpou a garganta. — Eu sinto que alguma coisa tá esperando a gente lá dentro.
Ele não apontou, mas todos sabiam que falava da porta entreaberta.
Samuel olhou para a fresta de luz e, por um momento curto demais para admitir em voz alta, quis simplesmente sugerir que seguissem pela direita, que abraçassem o caminho escuro e fingissem que a porta não existia. A luz fraca não parecia promessa de segurança, e sim chamariz.
Você não é o protagonista. Você é suporte. Vai entrar em grupos que nem sabem que precisam de você.
Respirou fundo. Ajustou a postura, como se o corpo entendesse antes da mente que vinha confronto pela frente — não necessariamente de soco ou feitiço, mas de olhar para algo que não deveriam ver.
— A gente já tá fundo demais pra achar que dá pra escolher o caminho “menos estranho” — disse, por fim. — Pelo menos ali tem luz. E… se tiver alguma resposta em algum lugar, não vai ser no escuro total.
Isadora assentiu, devagar. Thaís fechou os punhos, como se estivesse tentando prender a própria vontade de sair correndo na direção contrária. Vitor apertou ainda mais a revista contra o peito, como se segurasse um colete à prova de balas de papel.
Samuel avançou até a porta. Sentia o coração bater alto demais, sentia a pele arrepiada, sentia o prédio inteiro atento ao gesto. Encostou a ponta dos dedos na madeira, sentindo a superfície fria, levemente úmida.
— Se der muito errado, alguém reclama no mural da ouvidoria depois — murmurou, sem humor.
E empurrou a porta, guiando o grupo para ainda mais fundo no pesadelo em que a universidade tinha se convertido.





