Aquele que escreve
E lá vai ele, escrevendo mais uma vez.
Olha lá ele, mais uma vez, com o mesmo discurso de sempre: diz que gosta de escrever. Mas escreve o quê, afinal? Poesia, conto, romance? Não, nada disso. Ele só… escreve. Escreve porque precisa. Escreve para o trabalho, para responder e-mails, para fazer pedidos, para seguir ordens e dar ordens, para comunicar, para esclarecer, para registrar. Escreve tanto que as palavras já saem quase automáticas, desenhadas no teclado sem passar pelo coração.
No fundo, gostaria mesmo era de escrever para si. Colocar os pensamentos pra fora, desenhar sentimentos em frases, explicar tudo aquilo que não consegue dizer em voz alta. Sonha em um dia sentar diante da tela em branco e, sem pressa, deixar escorrer o que sente e pensa, como quem se despe devagar, sem medo do frio ou do julgamento. Mas chega o fim do dia e tudo o que resta é um cansaço seco, um vazio na ponta dos dedos, um silêncio na cabeça.
A ironia dói: trabalha escrevendo o tempo todo, mas já não escreve mais nada que seja seu. A vontade de escrever virou saudade, e cada palavra é só mais uma obrigação cumprida, não uma libertação. No fim, talvez só lhe reste dizer, baixinho, pra ninguém ouvir: "Sim, eu gosto de escrever. Só não sei mais como."

